Silly Season - Capítulo 1 - Plataforma Media

Silly Season – Capítulo 1

No hemisfério norte tem hoje início a silly season, também conhecida como verão. É a altura ideal para pensamentos leves, escritos ociosos, narrativas de viagens, enfim todo o género de disparates que geralmente me ocupam o espírito e sobre os quais compilei uma parte, a menos desprezível. Dividi em vários capítulos que apresentarei ao longo do verão. 

Sobre a relatividade  

Enquanto Einstein elaborava a teoria que revolucionaria a compreensão do universo, algures um cão lambia os tomates.

Felizmente para a ciência, a apetecível sombra sob o coqueiro estava ocupada por Alfred, o maluquinho da aldeia, tendo Isaac Newton de se contentar com a sombra da macieira. Após uma súbita rajada de vento o físico apanhou uma maçã e uma epifania, e o infeliz Alfred foi morto por um coco na tola.

Cientistas afirmam que humanos e bananas partilham 50% do seu ADN, portanto para nós a banana é uma espécie de meia-irmã. Se eu tiver filhos com ela será que eles sairão meio-estúpidos ou completamente bananas?

Há quem me considere supersticioso mas constato que todas as pessoas que alguma vez viram um gato preto são afectadas por uma estranha maldição: mais tarde ou mais cedo acabam por falecer.

Enquanto a conversa à mesa da tasca não traz nada de novo e revela ideias da Idade da Pedra, a idade da pedra da mesa da tasca é uns milhões de anos mais velha que as ideias. 

Apesar de serem gémeos, não sei porquê Dupond prefere Shumann e Manet, já Dupont prefere Schubert e Monet.

Se em vez de terem enviado o Armstrong para a Lua tivessem enviado o Colombo, ele tinha ido parar a Marte.

Se o Newton não tem descoberto a gravidade, hoje eu teria dado um saltinho às Maldivas.

Se em vez de ter sido D.Sebastião a desaparecer em Alcácer Quibir tivesse sido Marcelo Rebelo de Sousa, já tinha aparecido, em todo o lado.

Se Beethoven fosse pintor era cego.

Se em vez de aquecimento global as emissões de dióxido de carbono provocassem arrefecimento global, nunca teria emergido a Greta da Suécia e sim a Niara da Tanzânia.

Se o rei Carlos II não tem casado com D. Catarina de Bragança e tivesse casado com D.Urraca de Castela, em vez do chá das 5 os ingleses hoje bebiam a sangria das 5.

Sobre relações

Nunca entendi as mulheres até ao dia em que vi um filme de acção e me apercebi do profundo significado da frase da polícia enquanto algema o suspeito “tem o direito de se manter em silêncio; tudo o que disser pode ser e SERÁ usado contra si”

Nascidos em séculos diferentes, a filha estuda para o teste e o pai pergunta se quer ajuda; ela responde: “-para tu me explicares, eu tinha que te explicar primeiro”

Na fila cheia de gente farta de esperar para entrar na farmácia, à medida que passa os olhos pelo telemóvel, a neta adolescente pergunta:

“-Avó, tens Instagram?”

“-Não, tenho Brufen.”

Uma família sai do hipermercado, o puto deixa cair no chão um produto que se entorna. Se fosse 

um pai sueco: “Oh jee”

um pai alemão: “Scheiße!”

um pai inglês: “Stewooopid”

uma mãe russa (Slap!) O puto leva um estalo mas não chora

uma mãe chinesa (Slap!) O puto faz uma cara feia aguentando as lágrimas sem chorar, a mãe grita: “你是个没用的蠢货****”

uma mãe portuguesa: “olha-me só para o que tu fizeste Bruno Miguel (o puto chora por antecipação), já viste este lindo serviço? Agora vais apanhar! (a mãe só ameaça sem lhe bater contudo o puto chora ainda mais alto) Quantas vezes é que eu te avisei para tu não blá blá blá blá blá…”

Ao fim de uma década de luto, finalmente a minha avó começou a sair com namorados da idade dela mas não tem tido muita sorte porque eles baldam-se aos encontros para lanchar e nem passam cartão. Quando são os seus familiares a ligar é sempre com a mesma desculpa “lamento informar que o sr X ou o sr Y faleceu”.

Sobre viagens

Como tornei cínico? A viajar. Um dia ainda a secar as lágrimas da emocionante despedida, enquanto levantava voo espreitei pela janela do avião, vi a minha casa e reparei que havia uma festa no quintal.

De visita ao cemitério de Buenos Aires fiquei a saber quem é a família mais ignorada da Argentina: são os Picozzi Gandia. Reparei que o seu mausoléu fica em frente ao de Eva Perón e todos os dias milhares de turistas lhes viram as costas. 

Para inglês não ver. No comboio Intercidades alguém através do intercomunicador vai anunciando as paragens nas estações em português e inglês. Subitamente a mesma voz só em português e em tom grave diz: “Atenção senhores passageiros, a CP informa que é extremamente proibido efectuar peditórios neste comboio. Obrigado pela atenção.” Deduzi que se fosse só proibido, vá que não vá, ainda dava para pedir qualquer coisinha à socapa, agora “extremamente proibido”, ’tá quieto, nem pensar. 

Num hall de hotel no Dubai sentado em frente a uma mulher completamente tapada da cabeça aos pés comprovo o A-E-I-O-U da postura em público: táctica, técnica, típica, tónica, túnica.

No ocidente desconhecem que o bambu é 6 vezes mais forte que o aço, e também por isso é que todos os andaimes na China são de bambu. Agora entendo porque os pregos, os martelos, as bicicletas, os cofres são de bambu, a versão chinesa do Super-Homem diz “mais rápido que uma bala, mais forte que o bambu”, e a maior vedeta masculina da indústria porno de Hong Kong, Joe Chan, é conhecido como “o picha de bambu”, alcunha que também permite inferir jocosas rimas.

No Porto Alto à beira da estrada um restaurante chamado “Poeta” anuncia num letreiro em letras garrafais “bifanas há poeta”:

Ahh, tem mais um agá… 

E que importa esse acrescento? 

Aposto que não tendo agá,

Nem seria grave, o acento. 

Quem passa vem com pressa, 

Quer uma rápida fartança, 

Não vem p’ra encher a cabeça

E sim encher a pança.

*Músico e embaixador do Plataforma

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