Protagonistas africanos têm pouco lugar nos programas de História - Plataforma Media

Protagonistas africanos têm pouco lugar nos programas de História

Referência no ensino da História de África em Angola, desde a sua chegada ao país em 1984, o historiador maliano Boubakar Namory Keita reflecte, em entrevista ao Jornal de Angola, sobre os desafios do continente.

Uma nova independência dos países africanos, diz, é a luta que se impõe, numa referência clara ao desenvolvimento. O actual chefe de Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais da UAN, que já passou pelos ISCED do Lubango e de Luanda, acabando por formar grande parte dos quadros angolanos nas áreas de História e Antropologia, refere que os conflitos em África só têm uma solução: tolerância política e religiosa.

Mais de uma década depois da publicação de “História da África Negra”, referência para os estudantes universitários em Angola, que falhas ainda persistem nos programas de História de África?

Acho que são, na realidade, duas perguntas numa só. Ou seja, colocada deste modo, parece estabelecer uma relação entre, por um lado, a obra em referência e, por outro, os programas de formação em História no nosso país. Na realidade tentei fazer uma síntese, a mais esclarecedora possível, da História política e das civilizações da África Negra para os estudantes do Ensino Superior (é bom que se sublinhe isto!). Dei conta que se atingiu uma grande parte dos objectivos do empreendimento porque provocou e continua a provocar um certo entusiasmo no seio deles, e não só. Têm, de facto, a possibilidade de obter uma visão um tanto quanto global e fidedigna (sem aquela abordagem, classicamente, eurocêntrica) do passado e percurso histórico do continente. Os estudantes encontraram uma boa síntese dos principais problemas de metodologia da investigação da história, de modo geral e da África negra, em particular. Tentamos explicar qual o lugar de África na génese e evolução do Homo Sapiens. Porquê África é o berço da Humanidade? Como compreender a génese e a essência da civilização do Egipto antigo, sublinhando o perticular papel do Egiptólogo Cheikh Anta Diop (senegalês) neste processo. Assim, o estudante angolano e africano quebra uma persistente corrente de alienação, para assumir a sua plena plenitude cultural baseada numa consciência histórica reencontrada. Ao terminar com a análise da chamada Idade Média africana, a obra propõe uma leitura sobre o conceito “África pré-colonial”, uma História endógena dinâmica; o fim de mais um mito na Historiografia. Por tudo isso, trabalhamos sobre uma versão revista, actualizada e enriquecida que está a ser analisada actualmente por uma editora local.

E quanto às falhas nos programas…

Agora, e falando dos programas de História, tocamos uma outra dimensão das nossas preocupações: dos Ministérios de Ensino Superior, de Educação e do Departamento de História. Para resumir as “falhas”, como diz o Micolo, persistem em muitos aspectos. Aliás isto não é de admirar. Do meu ponto de vista o objectivo final é de assegurar e aprofundar, cada vez mais, esta “consciência história” a que fiz referência e que possa proporcionar ao jovem africano a profunda convicção de ser parte integrante do processo histórico universal, ou de ter participado activamente no advento da civilização universal (o que lhe foi negado durante décadas, desde o Tráfico de escravos negreiros e reforçado pela colonização europeia). O desafio é enorme, sobretudo depois de um período alienador como a colonização europeia. Herdámos de um sistema de educação (e não apenas!) que, além das consequências clássicas, nos impossibilitou de assumir plenamente um verdadeiro renascimento de África. Aproveito para lembrar que o Ministério de Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação (MESCTI) está engajado, concretamente desde o ano passado (2020), num processo de harmonização dos Planos Curriculares de formação em licenciatura, em todas áreas de conhecimento. É a oportunidade soberana de erguermos, finalmente (!) um corpo de saber que corresponda realmente a nossa cosmovisão, assegurando de facto um desenvolvimento sustentável do nosso país e de África. Penso que, assim iremos minimizar as falhas a que faz referência.

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