Ressurreição

Ressurreição

O Sporting ganhou a Liga de futebol. Mais que a alegria de um adepto confesso esta época deixou pistas para mudanças na sociedade. Frederico Varandas surgiu numa altura em que o clube praticamente desaparecera, arruinado por guerras internas. A pouca margem de manobra financeira e a inexperiência do novo presidente produziram resultados decepcionantes nos primeiros anos, porém sempre pensei que as contas só se fazem no fim dos mandatos; não é fé, é bom senso. Simultaneamente íamos assistindo a ataques continuados de facções internas do clube, de tal forma que os rivais negligenciaram atirar as bicadas normais em ambientes de concorrência, como se estivessem a apreciar a beleza de “vê-los destruirem-se sozinhos”. Após várias experiências falhadas, Varandas contrata Amorim. O timing e quantia despendida acentuaram o cepticismo no universo sportinguista. No entanto percebe-se agora que a sua contratação foi uma jogada de antecipação a um cenário entretanto tornado evidente: todos gostariam de ter Amorim.

Por muito louvável que fosse o seu trabalho no SCBraga este clube não proporciona as mesmas condições que o Sporting, na verdade os minhotos forneceram-lhe o que podiam, um trampolim para um grande. E apesar da chacota de que era alvo e das dificuldades que se constataram ao confrontar o eixo de poder Benfica-FCPorto, o Sporting mesmo enfraquecido movimenta teias de interesses e uma massa de adeptos tanto em território nacional como na diáspora só comparável ao Benfica. É fácil a um clube ganhador captar adeptos, daí ser notável, quiçá um caso de estudo, o número de jovens apoiantes que o Sporting sempre teve, em particular nos últimos 19 anos. Que miúdo se assume adepto de um clube que nunca viu vencer rivais e “não ganha nada”? Será amor? Oportunismo não é certamente. As pessoas gostam deste clube, não necessariamente porque ganha; ganhando traz vantagens adicionais mas também arrasta aqueles que vestem as suas cores por estarem contra outras, advém a todos os que disputam o topo. Tantas décadas de fora da luta contribuíram, na minha opinião, para uma visão mais objectiva porque observada à distância. A somar a isto não é igualmente alheio o facto de o Sporting ser eclético, não apenas um clube de futebol. E aconteceu agora a outras modalidades revelarem o trabalho invisível da actual direcção, vários troféus importantes, ainda ontem se juntou um título europeu, agora no hockey; é um acaso? Por este andar as conquistas passarão a ser consideradas “mais um dia no escritório”.

As competições ganham-se tirando o melhor partido das circunstâncias, de onde ressalta o mérito próprio e o demérito alheio. Por ter o plantel arrasado pela epidemia, o Sporting afastou-se precocemente das competições europeias. Sendo um under dog na corrida ao título restou atirar-se a cada jogo como se fosse uma final da Champions. A pouco e pouco esta atitude focada foi alargando a distância em relação aos adversários. Se foi difícil estabelecer uma décalage, mais difícil seria mantê-la, e até nisso a gestão de Amorim exibe saber de mestre. 

O FCPorto manteve a estrutura do ano passado, o que é uma mais-valia sendo campeão. O Benfica fez uma jogada absurda em tempo de pandemia, arriscou um all in sem haver público para ressarcir o investimento. Por motivos pessoais Luis Filipe Vieira precisava de se manter na presidência do Benfica; contrariando a sua estratégia e narrativa recentes, usou os recursos do clube para benefício da sua imagem indo buscar Jesus de modo a conseguir resultados imediatos. Este era o projecto, o imediato, e para isso recorreu aos métodos que conhece, os do passado. Ainda que tivesse funcionado creio que a lógica não tem futuro, o mundo mudou, e está a ser difícil para alguns perceber a diferença. Dispondo de poucos recursos o Sporting baseou o seu plantel em jovens da Academia, mesclando-os com jogadores experientes. Criou-se uma dinâmica positiva que contagiou toda a gente. O Sporting respira juventude, alegria, irreverência, e sobretudo competência. Às vezes as pessoas esquecem-se que o futebol é uma modalidade colectiva e frequentemente a soma das individualidades não faz um boa equipa. Amorim pô-la a funcionar como um todo, de tal maneira que se não fosse um avançado a marcar golo seria um defesa. Se tiver de nomear um jogador-chave ele é inequivocamente Palhinha. A solidez defensiva e os poucos golos sofridos devem-se à sua presença em campo, basta comparar ao ano passado onde havia uma auto-estrada em direcção à baliza, e Coates marcou vários auto-golos; esta época será o central do ano. Os outros não têm um Palhinha. Conceição perdeu o Danilo, Jesus obcecado em arrasar no ataque talvez nunca tenha percebido a importância deste sector, pelo menos a construção da equipa demonstra-o, é um plantel desequilibrado; eis a razão porque a qualidade e o profissionalismo dos centrais do Benfica chegaram a ser postos em causa, sabendo nós que são bons. Grande mestre da táctica…

Diz-se que o Sporting teve sorte. Teve mas não nos jogos, esses foram proficientemente ganhos, a sorte residiu no factor pandémico. Primeiro porque foi eliminado das competições europeias, proporcionando menos esforço aos atletas, e acima de tudo pela ausência de adeptos nos estádios. O FCPorto e o Benfica saíram notoriamente prejudicados no último parâmetro. Passou a ser fácil a um árbitro apontar um penalty contra em casa destes dois, os pequenos deixaram de sentir a pressão da massa adepta adversária que condiciona imenso o que se passa no terreno de jogo. Sem adeptos as equipas reflectiram o seu real valor. Se houvesse público nos estádios a equipa do Sporting nem teria chegado a levantar voo, à primeira contrariedade seria brindada pelas claques com cânticos destrutivos ou faixas do tipo “chulos, honrem a camisola”, “rua este, rua aquele…” Assim, respaldado numa grande instituição, Amorim teve a sorte de poder fazer experiências de laboratório num ambiente “asséptico”, isolado do ruído exterior. Correu bem para as duas partes, o Sporting é grande, Amorim é inteligente, e a fénix renasceu; noutras circunstâncias nenhum seria feliz, pelo menos esta época. 

A sua comunicação é considerada brilhante mas creio que o seja mais porque o ambiente onde se move é demasiado mau, não estamos habituados ao bom. Se estivéssemos, o padrão de comunicação genuíno, lúcido e realista de Amorim seria simplesmente normal. O Sporting provou que é possível ser campeão em Portugal com poucos recursos, união, garra, competência e inteligência para gerir as circunstâncias do momento. Foram claramente derrotadas as estratégias de guerrilha, investimento disparatado e fé no peso das camisolas. Renovou-se a esperança de que as novas gerações assumam o protagonismo que lhes tem sido negado pelos poderes instalados, pelas barreiras corporativas. Mais que derrotados, certos domínios foram ridicularizados; exemplos disso são as injustas decisões espalhadas a todos os clubes pelo Conselho de Disciplina e torneadas em instâncias civis, ou o processo movido a Amorim por este não ter o curso XPTO de treinador, como se fosse necessário um mestrado em física atómica para gerir uns miúdos aos pontapés a uma bola. O aprendiz derrotou os mestres, aliás está constantemente a dar-lhes lições, e nem tem pejo em confessar que lhes copia métodos que considera bons para si. Quão humilhante será para os egos e cadeirões do sistema? A competente irreverência deu cabo disto tudo.

A próxima época? Sei lá, estaremos perante diferentes circunstâncias. Talvez se vislumbre uma pista nas declarações de Amorim após a eliminação da Liga Europa em 3 de Outubro de 2020: “na grandeza o Sporting está em pé de igualdade com os rivais, mas no resto é impossível, não temos as mesmas armas. Cabe-nos trabalhar com isso. Parece-me que há muita gente que já desistiu da equipa, mas eu não desisto. Por mais que desistam, dentro e fora do Sporting, vão ter uma vida difícil porque nós vamos dar luta e vamos ser competitivos”. Sete meses se passaram e mantém o tom lúcido; depois de ter ganho o campeonato afirmou: “agora é nova vida, pensar na nova época, sabendo que pouco depois poderei já estar aqui a ver lenços brancos. Tenho noção disso, mas vou trabalhar com mais prazer ainda”. Sem hipocrisias, nunca se assumiu sportinguista desde pequenino, e depois de conhecer o clube por dentro, um dia deixou escapar uma frase que passou despercebida, contudo merecedora de reflexão; é a perspectiva de alguém “de fora”, sintetizando as lutas individuais versus o potencial colectivo, um sábio pensamento dito com a leveza de um jovem: “os adeptos do Sporting não têm noção da sua força”… Isto poderia aplicar-se a toda a sociedade, nomeadamente aos que julgam não ter poder para mudar o mundo. Se se unirem, onde vai um vão todos. Bem haja a esta geração que despontou no Sporting e permite acalentar a esperança num futuro mais competente, sustentado. 

Devido aos gravosos acontecimentos da festa do título, na próxima semana debruçar-me-ei sobre o lado negro da conquista.

*Músico e embaixador do Plataforma

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