O assédio

O assédio

Recentemente a atriz Sofia Arruda confessou num programa ter sido vítima de assédio sexual. Recebeu o apoio de figuras conhecidas, algumas foram inclusivamente vítimas do mesmo indivíduo. Entretanto o humorista João Quadros afirmou numa publicação que o apresentador do programa onde a Sofia fez a denúncia era ele próprio um predador…

Nunca assediei ninguém nem que me lembre fui assediado dessa forma, não possuo motivação e muito menos a suscito. Na altura em que estive dentro do meio televisivo escutei vários rumores, contudo, por repugnância, não tive vontade de aprofundar, só me traria infelicidade inconsequente. Os tempos eram outros, não existia consciência da dimensão e gravidade do problema, a reacção talvez fosse parecida à do povo alemão se durante a vigência do nazismo revelassem que o governo dizimava milhões de judeus em campos de concentração: “que absurdo, não é possível”. Eis o cerne da questão, vemos os outros a partir do que somos e conhecemos, por isso num primeiro impulso a confissão da Sofia deixou-me estupefacto, depois acredito; porque duvidaria de alguém que se expõe publicamente a tão humilhante acontecimento? Haverá atracção por via da coacção? Acho incompreensível… Deduzo que um assediador seja uma pessoa que não se tem em grande conta; não se tendo em grande conta tenderá a ver os outros da mesma maneira, sendo indigno jamais passará dignidade. Quem trata o próximo como carne para canhão terá eventualmente sido vítima de igual tratamento, sei lá, mas seguramente sente-se um lixo. Estar numa posição de poder apenas permite espalhar lixo, não foi o cargo que o gerou. Entre as demais características relativas ao assediador destaco o egoísmo e a ausência de empatia. A última assusta-me, é imprópria de humanos, não tenho retorno natural para ela. Alguns animais são empáticos, as máquinas não, executam o que a programação lhes ordena. Evito lidar com este desafio dado que a atitude do agressor corrompe a essência humana, coloca-nos ao seu nível, tornando-nos em um deles, o que não quero. Quando sou obrigado reajo atabalhoadamente, encarando-o à guisa de um animal ou uma criatura híbrida, e julgo que nomeá-lo alivia o sofrimento, levando simultaneamente a algum tipo de acção contra o abusador. 

Da maior parte dos casos de assédio ressalta um perfil: homem e chefe. Pois eu sou homem, nem de família sou chefe, e a um diferente grau do que referi anteriormente estou a ser vítima de um ignóbil assédio. Finalmente sinto o problema numa versão light, convenhamos, porém afecta-me bastante. Recebo há dois meses umas dez chamadas por dia de uma vintena de números parecidos; se atendo uma voz gravada diz que o número não está atribuído, se ligo de volta a chamada cai ao primeiro toque. Tentei indagar a origem, na MEO informaram-me serem números da empresa Iberdrola. Desconhecendo o motivo do massacre, no fim de contas ninguém fala comigo, o assistente alvitrou a hipótese de ser uma empresa sub-contratada de venda de serviços, ganhando comissão pelo contacto de potenciais clientes, e devido a receber chamadas a qualquer hora do dia ou da noite, será um serviço automático accionado por uma máquina. Bonito, sou assediado por um fantoche cibernético. De que modo se luta contra isto? Mandei um email à Iberdrola a explicar a situação e quer se deva a um outsourcing ou à própria empresa, esta é a última responsável. Ninguém respondeu, o ataque manteve-se. Consegui um contacto telefónico mas afinal é o da distribuidora de electricidade, uma entidade que coordena as companhias em actividade no mercado. Aí indicaram-me outro email para o qual repeti os argumentos do primeiro juntando-lhe a ameaça de acção criminal. Novamente sem resposta, dirigi-me a um posto da PSP para indagar a possibilidade de apresentar queixa, já que não encontrei qualquer entidade online onde a pudesse apresentar. Sim é possível, tem a tipificação “024 – crimes contra a reserva da vida privada”. Enquanto descrevia os factos no posto ligaram-me duas vezes… Questionei-os sobre se a queixa adiantará alguma coisa, responderam afirmativamente; não senti grande convicção. E assim vivo nesta situação em que as chamadas continuam ferozes, já me acordaram às 5 horas da manhã, interromperam comunicações wifi, condicionando-me a utilização do telemóvel, a vida em geral. A semana passada provocaram um grave transtorno familiar por não ter atendido a uma urgência pensando ser um dos números do assediador. É que mesmo no modo de silêncio as chamadas equiparam-se a picadas de mosquito peçonhento, deixando um prurido desconfortável, e há dois meses que ando irritado a coçar-me. Isto é justo? Resta-me usar os meios ao meu alcance para denunciar o crime, nomeando o autor do assédio que no meu caso se chama Iberdrola, uma distribuidora de electricidade. Ah, antes que me esqueça, o nome do agressor é Iberdrola. 

*Músico e embaixador do Plataforma

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