Apocalipse zombie - Plataforma Media

Apocalipse zombie

Iniciava-se a adolescência da minha filha, perguntei-lhe qual era o seu maior medo: “um apocalipse zombie”, respondeu-me sem hesitar. “Um quê?” – ri-me. Conhecedor do seu gosto naquela época por filmes de terror, e esperando amenizar o receio, expliquei-lhe que um zombie, um morto-vivo que se alimenta de cérebros dos vivos, é uma noção demasiado descabida para ser receada. De nada adiantou a conversa porque ela estava ciente da improbabilidade de tais seres, ainda assim mantinham-se no topo dos medos. Estou habituado à inata sabedoria que demonstra em vários assuntos, em relação a este só recentemente me apercebi: afinal existem zombies, hoje vivemos rodeados deles.

Morremos devido à degradação molecular. Desde o nascimento as células regeneram-se, vão compensando os danos até ao ponto em que se esgota essa capacidade; aí o complexo desequilibra-se irremediavelmente e fina-se. Além das vicissitudes internas, o organismo vive numa guerra permanente com interferências exteriores. Por serem fáceis de identificar, normalmente vírus, bactérias, meio ambiente, hábitos alimentares, tendemos a menosprezar o desgaste provocado por factores psicossomáticos. Estes raramente serão os principais suspeitos, no entanto são capazes de propiciar um acentuado declínio da saúde, chegando em casos extremos à fatalidade. Tive um conhecido que morreu novo, sem nenhum problema de saúde identificado; fora vítima de um tremendo desgosto amoroso, passou dois anos a definhar em depressão, um dia apagou-se tranquilamente. Creio que certas doenças têm origem emocional, um trauma pode efectivamente acumular energia disruptora num determinado órgão forçando os restantes a suprir a debilidade, como também creio que o cérebro possui capacidade para minar o sistema sem qualquer acção visível, e mais, sem o próprio indivíduo ter consciência da subtil sabotagem.

A pandemia, e consequentes reclusão obrigatória, limites de circulação, tele-trabalho ou desemprego, trouxe à tona esta questão: levantamo-nos da cama para quê? Muitos fazem-no para executar tarefas rotineiras relativas à sua subsistência ou à da dos seus, sendo frequentemente uma versão condensada do que antes faziam: ocupar o espírito ou o corpo por meio de actividades mecanizadas, justificando-as pela necessidade de prover bem-estar e um futuro sustentado aos que lhes são queridos. Na verdade estão a projectar nos outros um propósito para existirem. Não havendo esse propósito, e exceptuando o instinto de sobrevivência, qual será a razão para continuarem vivos? Eis a pergunta que poucos terão coragem de fazer a si mesmos pois já sabem a resposta e ela assusta.

Vê-se de tudo, há pessoas de cem anos vivas, e de dezoito mortas. Algumas já faleceram e não deram por isso, coabitam em união de facto com a morte, faltando somente assinar o papel do casamento. Ora se o corpo mexe por fora mas está morto por dentro, isto é ser zombie, e se não for não sei o que será… O temor da minha filha era fundado. Talvez a expressão “apocalipse zombie” tenha sido criada simplesmente para gerar impacto, logo lucro, porém é impossível ficar indiferente à estranha proficiência por parte da indústria do entretenimento na criação de cenários que se tornam reais. O que se seguirá? Um implacável combate pela sobrevivência contra tudo e todos, ao género Fortnite? Apocalipse é uma palavra de origem grega que significa revelação. A linguagem tem destas coisas, um poder oculto de estabelecer ligações, ainda que não as percebamos elas estão lá. Se esta expressão continha um seminal anúncio sobre o futuro, apenas agora quando já é uma evidência se deu a minha revelação pessoal. É no que dá desdenhar artistas ou crianças, os seres genuinamente mais conectados com a essência da vida. Julgo ir evitando que o meu cérebro seja comido, contudo, por sermos animais sociais, tem sido uma canseira diária não seguir o caminho que gente à minha volta parece trilhar em direcção à zombificação. Noutro tempo e circunstâncias provavelmente eu acabaria sedado num manicómio.

*Músico e embaixador do Plataforma

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