Fim do tiro ao pombo: Portugal finalmente do lado certo da história - Plataforma Media

Fim do tiro ao pombo: Portugal finalmente do lado certo da história

Se há facto que a sociedade portuguesa nos tem vindo a demonstrar, é que cada vez está mais sensível e consciente para as causas da proteção e do bem-estar animal, uma sensibilidade e consciência que deve ser acompanhada pelo poder político e que, infelizmente, nem sempre assim o é.

Mas pouco a pouco, vamos assistindo a pequenos grandes passos civilizacionais, como aquele a que assistimos nesta semana. Apesar do voto contra do PSD, PCP, CDS, CHEGA e de três deputados do PS (Pedro do Carmo, Norberto Patinho e António Gameiro), assim como a abstenção da IL e de um deputado do PS (Hugo Costa), foi aprovado na Assembleia da República, com os votos a favor do PAN, partido proponente, do PS, BE, PEV e do deputado do PSD Cristóvão Norte, o projeto de lei que proíbe a prática do tiro ao voo através da libertação aves criadas em cativeiro com o único propósito de servirem de alvo.

O tiro ao voo, ou “tiro aos pombos”, é uma das demandas mais antigas da causa animal. Uma prática anacrónica, contestada também  pelos praticantes da columbofilia e que consiste no abate bárbaro e injustificado destas aves em provas desportivas, sendo que nem sempre a destreza dos praticantes leva à morte imediata destes animais, que acabam por morrer fora dos campos de tiro, após longas horas de agonia.

Esta atividade teve origem em Inglaterra, país onde é proibida desde 1921, tendo sido substituída por pratos.  Portugal estava precisamente um século atrasado na eliminação desta prática, e de outras similares, não obstante tantas associações e personalidades terem lutado ao longo dos anos para lhe pôr fim. 

Em 1995, a Lei de Proteção aos Animais, promovida pelo Deputado António Maria Pereira, veio proibir o sofrimento injustificado dos animais. Logo em 1997, vimos ser cancelado um Campeonato Europeu de Tiro aos Pombos por decisão judicial na sequência de providência cautelar movida pela Sociedade Protetora dos Animais e da aprovação da referida Lei de Protecção dos Animais. Mas de lá para cá, ao longo dos anos foi permitida a realização destes eventos ao arrepio da Lei de Proteção aos Animais, apesar da forte contestação da sociedade civil e das associações de proteção animal. A realização destas provas tem sido feita de forma quase dissimulada, desde logo, passando a designar-se de “tiro ao voo” ou “tiro a chumbo” ao invés de “tiro ao pombo”.

Precisamente a ave que ao longo da história da humanidade tem simbolizado a paz e tem servido de mensageira, nesta atividade – e não só, tem sido massacrada de forma absolutamente cruel. A capacidade de sentir, e portanto também de sofrer dos animais, é hoje um facto científico inquestionável.

É, por isso, tão incompreensível que sabendo nós que para desafiar a perícia dos atiradores, o recurso a objetos inanimados, como os pratos, pode perfeitamente cumprir o mesmo propósito, ao longo destas últimas décadas se tenha continuado a sujeitar os animais a esta crueldade.

Contrariamente à pontaria, há algo que não deve ser passível de ser desafiado: o dever moral que temos de respeitar os demais seres vivos, em que se incluem as aves, evitando causar-lhes sofrimento desnecessário. Desta feita, a Assembleia da República posicionou-se, finalmente, do lado certo da história em matéria de respeito para com outros seres vivos.

Basta de chamar desporto ou cultura a atos cruéis como este, em que se matam animais por puro gáudio cruel dos seus participantes.

Este foi, sem dúvida, um avanço civilizacional pelo qual o nosso país ansiava há muitos anos. Acreditamos que muitos outros avanços, a seu tempo, se seguirão.

*Líder parlamentar do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) – Portugal

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