Primeiro de Abril - Plataforma Media

Primeiro de Abril

“Quão nos tem sido útil esta fábula de Cristo” – Papa Leão X

“A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade” – Pablo Picasso

“Todas as religiões, artes e ciências são ramos de uma mesma árvore” – Albert Einstein

Não posso confirmar a absoluta veracidade das afirmações acima reproduzidas. O que sabemos com alguma margem de certeza sobre o percurso dos três homens que eventualmente as proferiram é que cada um ao seu jeito buscava a verdade. Não importa agora esclarecer, conheço as citações há muito e servem-me de ponto de partida para esta ideia: a matéria é uma ilusão, e o dia 1 de Abril, consagrado o dia das mentiras, é uma data importante na medida em que celebra a essência do mundo tal como o conhecemos, uma mentira pegada. Na natureza a mentira tem uma utilidade prática, ajuda à sobrevivência. A camuflagem serve para iludir a presença do predador antes de atacar, servindo igualmente para a presa não ser detectada ou confundir o predador. Animais em perigo incham, arqueiam a espinha, soltam gritos atemorizadores, enfim, tudo mentiras, meios de se fazerem passar por aquilo que não são. Nos humanos é igual, temos na guerra um exemplo simples de entender. A mentira propõe-se obter vantagens mantendo o controlo sobre os outros e as circunstâncias, não perder a cara numa situação de fragilidade ou alimentar uma ordem que se gostaria de ver instituída.

As verdades e as mentiras são os fios que tecem o tangível, e uma vez entrelaçados tornam-se reais. Por isso não quero saber de factos, sejam ou não sancionados, depois de fabricado o tecido da realidade já não se distingue a verdade da mentira a não ser pela a sua essência; eis o que me interessa. Quem ama ou já amou sabe que o amor liberta, dá leveza. A essência do amor é a verdade. O controlo é o oposto do amor, dá peso, clausura. A guerra é uma mentira, nunca poderia ser um acto de amor. As religiões que pretendem espalhar o amor, ou seja a verdade, fundamentam-se em inúmeras mentiras, piedosas, bem intencionadas, mas mentiras. Pertencem a um estágio civilizacional em que não teríamos aptidão para enfrentar a verdade e sobreviver. Hoje constato que ainda não desenvolvemos essa competência, aliás estamos longe dela, e essa é a razão por que de modo a nos mantermos vivos preferimos a zona de conforto, a mentira. O passado é o que é, será escusado pretender mudá-lo, contudo somos capazes de reconhecer a qualidade dos fios que o teceram até ao presente, basta aquilatá-los pela bitola do amor, e munidos dessa cognição, poder alterar os tecidos futuros.

O que consideramos factos chega inclusivamente a ser bastante relativo para a ciência. A mecânica das interações quânticas é tão bizarra que leva muitos cientistas a considerar a realidade como uma simulação concebida para o observador. Na física quântica, a luz, por exemplo, pode ser duas coisas completamente diferentes: uma onda eletromagnética ou um fluxo de partículas, dependendo da circunstância, é a observação que a define, criando a percepção da realidade, distinta para cada observador. Recordo que Picasso alegadamente também afirmou: “se houvesse uma única verdade, não poderiam pintar-se cem telas sobre o mesmo tema”. Sendo a luz duas coisas diferentes, se não for observada ela não será nem onda nem partícula, ou será ambas as coisas ao mesmo tempo, e significa que ao observar uma coisa modificamo-la. Portanto a realidade materializa-se apenas quando é observada ou aferida de alguma forma. É a prova do princípio verificado pela ciência em todo o universo: a economia de recursos. As consequências filosóficas de vivermos numa simulação são vastas, todavia podemos desde já deduzir que a mentira sustenta o mundo material. E talvez seja pela iminência de abandonar esse mundo que muitos humanos no termo da vida esclareçam os próximos acerca de certas mentiras, aliviando o fardo que carregaram enquanto cá andaram. Outros omitem-nas de maneira a tentarem preservar a sobrevivência material do seu legado. Vamos adiando a clarificação das nossas vidas, e só quando nos encontramos à beira da morte compreendemos no íntimo que a realidade material foi um logro, um peso do qual em breve nos libertaremos. Amámos o suficiente? Se não agora é tarde demais para reparar faltas.

Na comédia de 2012 “O ditador”, protagonizada por Sacha Baron Cohen, o general Aladeen, ditador de Wadhiya discursa nos Estados Unidos perante uma plateia internacional a quem previamente prometera acabar com a ditadura. No momento de fazer o anúncio volta atrás e rasga o acordo que poria fim ao seu brutal regime, gerando um imenso burburinho de desagrado na assistência. Diz ele: “oh pá, calem-se lá… Porque são tão anti-ditadores? Imaginem se a América fosse uma ditadura. Poderiam deixar 1% da população ter toda a riqueza do país. Poderiam ajudar os seus amigos ricos a ficar mais ricos cortando-lhes os impostos, e resgatando-os quando jogam e perdem. Poderiam ignorar as necessidades de saúde e educação dos pobres. Os média pareceriam livres, mas seriam controlados por uma pessoa e a sua família. Poderiam escutar telefones, torturar presos estrangeiros, ter eleições fraudulentas, mentir sobre as razões por que fazem guerra. Poderiam encher as prisões com um grupo racial específico e ninguém se queixaria! Poderiam usar os média para assustar as pessoas, fazendo-as apoiar políticas que as prejudicam! Sei que para vocês, americanos, é difícil imaginá-lo, mas por favor, tentem”.

É por isto que gosto de artistas: através da linguagem que conhecemos, a da mentira, fazem-nos ver a verdade. E é também por isto que excluí deste texto questões do facto jornalístico, que supostamente reflectem um discernimento transindividual.

*Músico e embaixador do Plataforma

Related posts
Opinião

Portugal dos pequenitos

Opinião

Desabafo

Opinião

Chumbo à cadeira de comunicação

Opinião

Sede de liberdade

Assine nossa Newsletter