O paradoxo da tolerância - Plataforma Media

O paradoxo da tolerância

Esta semana um amigo perguntou-me o que achava de a canção que representa a RTP no eurofestival da canção ser cantada em inglês. Para mim foi uma surpresa uma vez que nem sabia ter havido festival. Sendo músico acredito que não acreditem, às vezes também me parece inacreditável contudo já perdi a conta ao tempo que não sigo o evento. Na verdade abriu-se uma excepção no ano do Salvador Sobral, para lentamente o festival voltar à pasta dos assuntos que não me interessam. Nessa altura tomei conhecimento da vitória do Salvador por causa da incrível polémica gerada nas redes sociais, porque alegadamente devia ter ganho uma outra canção. Pensei “bem, deixa lá ouvir o que indignou tanta gente” e foi impossível não me deixar arrebatar aos primeiros acordes. A música, o arranjo, e a interpretação são tão bons que a minha maior surpresa foi entender como é que aquela notável obra de inspiração e competência ali caíra… Após o impacto inicial logo percebi não ser fruto do acaso, tudo me levava a crer ter sido criada de propósito para aquele fim, o que mais tarde confirmei. Fiquei na expectativa de aquilatar a reacção da audiência internacional, e de facto atestou-se que quando a expressão musical é fora de série não há fronteiras, seja qual for a língua. 

Devido à nova polémica procurei ouvir o tema deste ano. Em primeiro lugar considero a música banal, o arranjo e a interpretação bons. Na música de variedades, vulgo pop, a letra é-me mais ou menos indiferente; não é normal em três minutos revelar-se uma grande ideia, nem será esse o propósito, geralmente apela-se a emoções vulgares sacrificando-se o conteúdo à forma, através da rima, métrica ou fonética. Atingir a simplicidade nas palavras, ou seja a genialidade, o caso da canção do Salvador, dá uma trabalheira imensa, a menos que a letra resulte de uma grande inspiração. Suponho que cantar em inglês seja uma opção da banda desde sempre, então esperar que cantassem noutra língua seria desvirtuar a sua orgânica. Portanto deixem lá a banda em paz, esqueçam a importância da letra, o propósito é claramente comercial, propõe-se encaixar no escopo do music-business. O eurofestival da canção é uma mostra do music-business europeu, não uma performance artística, daí a minha gradual indiferença à medida que vou envelhecendo. Embora a canção do Salvador fosse idealizada para o certame, era um corpo estranho ao que ele representa; esta não, até se exprime na sua língua, a do negócio. 

Na indústria musical tudo o que não seja cantado em inglês vai quase sempre parar às secções de “world music”. Quanto a mim considero disparatado cantar-se em inglês quando o alvo é o mercado português. Estabelecer por cá a carreira sustentada nessa língua transmite uma aspiração infantil. Passar a ideia “veem, somos capazes de fazer igual ao que se faz lá fora” e não sair disso é viver numa ilusão, não crescer. Por outro lado soa ingénuo pensar que se dará o salto para o palco internacional produzindo aqui o mesmo que se produz na anglofonia; se lá já têm excesso de oferta por que motivo iriam sequer reparar num produto semelhante, ainda assim estranho ao seu ecossistema? Tencionar incorporar-se no meio internacional do género pop implica um enorme esforço para os artistas nacionais de modo a camuflar os traços “étnicos” (neste caso “latinos”) que os denunciam e que tanto incomodam os gestores da indústria mainstream. Depois, há que ter em conta o factor mais importante, a relevância financeira do mercado de origem. Os gestores internacionais apenas olham para os números, e se alguém chegar à fala com um deles ambicionando promover um cantor ou banda nacionais, a primeira coisa que o gestor perguntará é “quanto vendeu em Portugal?” Ora se os valores do mercado nacional são ridículos, estamos perante uma pescadinha de rabo na boca. Não estando baseados numa potência de mercado mundial torna-se quase impossível singrarem nessa área. Há raras excepções no mainstream porém essas ou têm um forte apoio financeiro ou uma identidade única, acrescentam mais-valia ao mercado global. 

Este grupo que ganhou o festival português vai ter a oportunidade de uma vida no eurofestival, o seu “one shot” numa montra internacional. Estando só a RTP por trás e sem captarem o interesse de quem mexe os cordéis no meio, mesmo que ganhem não acredito que consigam dar o dito salto, no entanto não lhes custa sonhar, no fundo estão a fazer o seu caminho, a tentar a sua sorte. Se a RTP os admitiu a concurso é sinal que a regra de cantar em português já não existe, o que desconhecia. Entende-se a pretensão de inserção na lógica do festival, embora seja pueril pensar que moldarmo-nos aos outros faz com que nos aceitem como iguais, e lastima-se bastante por ser um canal de difusão da Língua Portuguesa. A RTP não está a prestar um serviço público, está a prestar um serviço a particulares ao sancionar uma banda que persegue um sonho pessoal, nos seus moldes, pelas suas regras, não nas do interesse público. Dito isto espero que os Black Mamba contrariem tudo o que disse anteriormente, ganhem, e tenham o sucesso internacional que certamente almejam, mas que isso não justifique e não sirva para impedir a RTP de reverter a regra de enviar representantes numa língua diferente da que lhe dá razão de existir.

*Músico e embaixador do Plataforma

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