ONU condena 'firmemente' a repressão militar em Mianmar

ONU condena ‘firmemente’ a repressão militar em Mianmar

O Conselho de Segurança da ONU condenou “firmemente”, nesta quarta-feira (10) a repressão em Mianmar, onde centenas de policiais e soldados lançaram uma operação em Yangon contra trabalhadores ferroviários em greve e oponentes da junta militar golpista

O documento, adotado por seus 15 membros – entre eles a China e a Rússia – critica os militares de uma forma sem precedentes e e pede “maior contenção”, embora não mencione a palavra “golpe” ou possíveis sanções.

Os Estados Unidos, contudo, anunciaram pouco depois o congelamento em território americano dos ativos dos dois filhos do chefe da junta militar de Mianmar, Min Aung Hlaing, “em resposta ao golpe” e “a matança brutal de manifestantes pacíficos”.

O Conselho de Segurança, que “condena firmemente a violência contra manifestantes pacíficos, incluindo mulheres, jovens e crianças”, pede às partes que “busquem uma solução pacífica”, de acordo com o texto acordado pela AFP.

O documento elaborado pelo Reino Unido, uma ex-potência colonial, também pede “a libertação imediata de todos os detidos arbitrariamente” desde 1º de fevereiro, quando os generais derrubaram o governo civil de Aung San Suu Kyi.

Aproveitando a divisão até então na comunidade internacional, que enfrentou vetos de Moscou e Pequim, tradicionais aliados da junta militar, os generais mantiveram a repressão.

Centenas de policiais e veículos militares foram mobilizados ao redor da área de moradia dos funcionários da estação Ma Hlwa Gone, na zona leste da capital econômica do país.

“Bloqueiam as portas (dos apartamentos) e as destroem para entrar”, contou à AFP uma familiar de um funcionário, que pediu anonimato por temer represálias

De acordo com a mulher, que expressou sua preocupação “pelos trabalhadores” e suas famílias, cerca de 800 funcionários participam do movimento de desobediência civil nesta estação.

“Centenas de detenções”

Médicos, professores, funcionários de empresas de energia elétrica e das ferrovias pararam de trabalhar desde o golpe de Estado.

Os principais sindicatos convocaram a “paralisação total da economia” para tentar interromper as atividades no país e aumentar a pressão sobre os militares.

A junta ordenou que o retorno dos funcionários ao trabalho em 8 de março e ameaçou os grevistas de demissão e represálias.

Desde o golpe de Estado, o país é cenário de protestos diários. Na quarta-feira, uma forte presença policial e militar foi visível em Yangon, onde barricadas improvisadas foram incendiadas por manifestantes.

No bairro de Okkalapa, foram feitas “centenas de detenções”, segundo um salva-vidas. “Alguns manifestantes foram espancados, há feridos”, acrescentou.

“Pedimos às forças de segurança que se retirem da área, libertem os detidos e permitam que as pessoas saiam com segurança”, tuitou a embaixada dos Estados Unidos, relatando que jovens foram cercados naquela área de Yangon.

A junta parece mais determinada do que nunca a impor o regime, com operações em edifícios residenciais, hospitais, universidades, detenções em larga escala e o uso de munição letal.

Ao menos 60 civis morreram e quase 2.000 pessoas foram detidas desde fevereiro, segundo a Associação para a Assistência aos Presos Políticos.

Refugiados na Índia

Os militares também executaram operações contra meios de comunicação independentes e revogaram as licenças de operação. Quase 20 jornalistas foram detidos.

O exército nega envolvimento na morte de manifestantes e justifica o uso da força alegando fraudes nas eleições legislativas de novembro, vencidas por ampla margem pelo partido de Aung San Suu Kyi, a Liga Nacional pela Democracia (LND).

Os deputados que não reconhecem a legitimidade da junta, e que criaram um comitê para representar o governo civil, são acusados de “alta traição”, delito que pode ser punido com a pena de morte ou uma sentença de 22 anos de detenção, advertiram os militares.

Dois líderes da LND morreram quando estavam em detenção nos últimos dias.  

Nesse contexto, pelo menos 136 birmaneses se refugiaram na Índia desde o golpe e dezenas de outros aguardam na fronteira para fazê-lo, anunciaram as autoridades indianas.

O golpe gerou condenações e sanções de Washington e da União Europeia, mas, indo contra a maré, o Sri Lanka convidou o novo ministro das Relações Exteriores de Mianmar para falar sobre cooperação econômica.

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