Indígenas apelam à paralisação de importações do Brasil para pressionar Governo - Plataforma Media

Indígenas apelam à paralisação de importações do Brasil para pressionar Governo

Personalidades indígenas brasileiras apelaram na quinta-feira a nações estrangeiras que paralisem as importações comerciais do Brasil, de forma a pressionar o Governo de Jair Bolsonaro a preservar a Amazónia e a demarcar terras nativas.

O apelo foi feito numa campanha global a favor da preservação, denominada “Proteger a Amazónia: O nosso futuro comum e responsabilidade em solidariedade com os povos indígenas”, da qual fizeram parte nomes como cacique Raoni Metuktire, principal líder dos indígenas brasileiros, e a primatóloga e antropóloga britânica Jane Goodall, além de líderes mundiais do movimento de direitos ancestrais e justiça ambiental.

Aproveitando o palco virtual global que a campanha proporcionou, o cacique kretã kaingang, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) lançou o apelo para que países europeus, norte-americanos e asiáticos “que tanto lutam pelas mudanças climáticas”, “paralisem a importação de produtos fruto da desflorestação e destruição da Amazónia, que potenciam o extermínio de povos indígenas, e façam pressão sobre o Governo brasileiro”.

“Verifiquem os produtos que estão a consumir e verifiquem se não tem sangue indígena derramado”, acrescentou kretã.

Já o cacique Raoni Metuktire, de 91 anos e figura incontornável da resistência indígena, relembrou o período da colonização, “que começou com os portugueses e que foi o início de todos os problemas” para os povos ancestrais, ao transportarem consigo “escravatura”, “mortes” e “disputas”.

“Apesar disso, nós tomamos conta da natureza geração após geração. (…) Tentam descredibilizar-me, mas não fazem ideia do que passamos. Queremos viver em paz”, frisou Raoni, que classifica esta tentativa de proteger a Amazónia e de aumentar a demarcação de terras indígenas como a sua “última missão”.

“Quero que sejam traçados os limites da terra indígena Kapot-Nhinore, esta é minha última missão. Mesmo estando agora muito velho, devo ter sucesso”, acrescentou o histórico líder, sustentando que a área cuja demarcação foi reivindicada é a terra onde estão “os restos mortais” do seu pai e avós.

Hospitalizado duas vezes no ano passado por problemas com úlceras gástricas e por ter contraído a covid-19, Raoni nasceu naquelas terras localizadas no norte do Brasil, antes isoladas na floresta Amazónia e hoje ameaçadas por fazendas ilegais.

Ambientalistas acreditam que uma das melhores formas de preservar essas áreas é reconhecê-las oficialmente como terras indígenas, onde qualquer mineração ou lavoura não tradicional é proibida.

Mas o reconhecimento desses territórios reservados aos indígenas estagnou desde a chegada ao poder, em janeiro de 2019, de Jair Bolsonaro, que garantiu durante a sua campanha eleitoral que não daria “nem mais um centímetro” de terra aos indígenas.

No programa transmitido em várias plataformas na quinta-feira, e organizado por várias organizações não-governamentais (ONG), Raoni sublinhou que as terras nativas estão a ser ocupadas pela agropecuária.

“O homem branco cria animais em larga escala para vender, ao contrário dos indígenas, que caçam para comer e dar de comer a toda a aldeia”, destacou o cacique.

Já Sydney Possuelo, ativista e ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) na gestão do antigo mandatário Fernando Collor, advogou existir um preconceito na sociedade civil brasileira em relação à importância dos povos nativos, que os vê como sinónimo de “atraso”.

“Apenas uma elite pequena da sociedade brasileira se preocupa com os indígenas. Os próprios vizinhos dos povos ancestrais, disputam com eles as terras. Se ainda acham que os indígenas atrasam o desenvolvimento do mundo, que é isso que está difundido no Brasil, a situação não irá melhorar”, garantiu Possuelo, que dedicou 42 anos da sua vida à causa indigenista.

O ativista alertou ainda que a própria Funai, órgão governamental responsável pelas questões indígenas, pratica, atualmente, uma “política anti-indígena”: “Nada está seguro, nem mesmo as terras já demarcadas. Pode vir um Governo e destruir o trabalho já feito”.

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