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Estamos juntos, Moçambique!

No início deste mês estive dez dias em Moçambique. Fui a Cabo Delgado dizer-lhes de viva voz: estamos juntos! Vi, com os meus próprios olhos, o sofrimento de um povo que foge do terror. Nós temos países parceiros, países aliados e também países irmãos. Os moçambicanos são um povo irmão que precisa muito do nosso apoio neste moimento difícil da sua vida. Não lhes podemos faltar agora.

O Norte de Moçambique vive uma situação de desespero. E a comunidade internacional tem de conhecê-la e reconhecer o problema que terá entre mãos. Homens, mulheres e crianças que fogem das suas casas e da sua terra em busca de auxílio. De teto, de comida, de segurança. Moçambique é um país soberano e o que se lhe pede é que fale e diga do que precisa para acudir mais prontamente a esta gente.

Conversei em Cabo Delgado com muita e boa gente que se preocupa, a começar no Senhor Bispo de Pemba. Mas também com a Comunidade Portuguesa e com os líderes ou representantes de outras comunidades, incluindo as religiosas. Todos são unanimes na necessidade de ajuda. Urgente. Para que um drama de quase seiscentos mil deslocados e mais de dois mil mortos não se transforme numa tragédia humanitária. E numa questão séria de Direitos Humanos.

Durante as longas viagens que fiz para lá chegar, a Pemba e ao Cabo do Medo – como alguém lhe chamou, revisitei um escrito meu faz muito tempo, mas que o tempo não apagou.

Quando se perde o controle de uma situação ou se está em vias de a perder, nada melhor do que começar por o reconhecer para agir e resolver. Sem vergonha de pedir ou tão só sinalizar a necessidade de ajuda. Ainda vamos a tempo se Moçambique, os moçambicanos e as pessoas de boa vontade quiserem

Falo-vos do exemplo de Nelson Mandela que escreveu o seu nome na história recente da humanidade com a simplicidade dos grandes homens. Foi o pai da democracia sul-africana e personificou a identidade de uma nação. Em vez de assumir-se como um mito, expunha os seus próprios erros. Não era pacifista, mas propunha a paz. Abominava o regime de segregação, mas não guardou rancor dos seus carrascos. Tanto assim que em 1995 estabeleceu a Comissão da Verdade e Reconciliação para analisar as violações de direitos humanos cometidas durante o apartheid, por ambas as partes. As vítimas e os algozes fizeram os depoimentos em público, expondo a dor causada e procurando a reparação, sem revanchismos. O objetivo era virar a página da história com os pés assentes na realidade presente, mas a olhar para o futuro.

Quando se avolumaram as pressões diplomáticas e as campanhas internacionais para ser libertado, todos tinham a noção de que representava a luta de um povo por justiça, mas poucos pelo mundo fora sabiam exatamente quem ele era e o que havia feito. Não se sabia sequer como ele era, pois desde 1964 não se divulgavam fotografias novas do prisioneiro, que nem autorização temporária recebeu para ir aos funerais da mãe e de um dos filhos.

Era um revolucionário quando entrou na prisão, e saiu de lá um estadista disposto a negociar com o inimigo a construção de um país mais justo. Dedicou a vida ao resgaste do seu povo e deu uma contribuição imensa para que a própria humanidade procurasse curar-se dessa chaga abominável que é o racismo. Atrevo-me a dizer mesmo que sem Nelson Mandela primeiro, nunca haveria Barak Obama depois.

Tanto dentro como fora da África do Sul, há um medo persistente de que a sua morte envenene a qualquer momento a alma do país. Para entender o rumo pós Mandela há que, antes de tudo, saber-se de África. E não só da África do Sul, mas também das nações que compõem aquela região. Madiba ascendeu á Presidencia pelo seu exemplo – e na política o exemplo é fundamental, com a maioria do seu povo e com a força de braços militantes do seu partido. Mas não se aproveitou dela para se eternizar no poder. Terminado o mandato deu um exemplo raro de desprendimento. A letra e a estrutura do hino nacional da África do Sul não só são lindíssimas, como apelam à tolerância que foi a sua obra maior. As cinco línguas faladas no país estão contempladas no “Nkosi Sikelel´i Afrika”, ou seja, “Deus abençoe África”. Assim os homens queiram.

Voltemos a Moçambique. Para dizer que as questões deveriam ter-se mantido no âmbito da política, aí dirimidas as quezílias, e evitado fugir dela. E que quando se perde o controle de uma situação ou se está em vias de a perder, nada melhor do que começar por o reconhecer para agir e resolver. Sem vergonha de pedir ou tão só sinalizar a necessidade de ajuda. Ainda vamos a tempo se Moçambique, os moçambicanos e as pessoas de boa vontade quiserem. É urgente a paz. Ontem, já era tarde!

*Deputado do Partido Social Democrata (PSD) – Portugal

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