De mal a pior - Plataforma Media

De mal a pior

A uns arrancou-lhes os empregos, a outros agravou as condições. A vida, que já não era fácil em Macau, ficou mais difícil com a pandemia. A maioria foi obrigada a deixar o território e sobrevive, muitas vezes recorrendo aos amigos que resistiram ao despedimento massivo de emigrantes por causa do impacto do vírus da Covid-19. No final de setembro, os trabalhadores não-residentes eram 181.697, menos 11.773 face a igual mês de 2019. Ao PLATAFORMA contam como levam agora a vida. Foi, talvez, a primeira vez que foi triste voltar a casa.

A presidente da União Progressiva do Trabalho dos Trabalhadores Domésticos resume a situação dos que saíram e dos que ficaram. “Trabalham muito mais horas, mas viram o salário reduzido para metade; a outros cancelaram-lhes o visto de trabalho, sem aviso prévio, porque o empregador também perdeu o emprego. Alguns mantêm-se no emprego, apesar de sofrerem abusos ou estarem doentes por terem medo de o perder”, detalha Jassy Santos.

Como se as palavras não chegassem, a líder associativa recorre aos números: “Antes da pandemia, grande parte dos empregados domésticos trabalhava 12 a 14 horas diárias por 4.200 patacas. Agora, trabalham o mesmo, mas ganham 2.100.”

“Os que voltaram, sentem que são um peso para as famílias e querem voltar a Macau”, acrescenta. 

Vangie Quines

Vangie Quines voltou às Filipinas a 18 de junho. Ficou sem emprego porque o empregador sul-coreano não pode voltar a Macau por causa das restrições à entrada. Enquanto esperou para embarcar num voo fretado pelo Governo Filipino, viveu com “quase nada”. A vida lá, ressalva, é ainda pior. Além da crise sanitária sem fim à vista, agravam-se as dificuldades económicas. “Não tinha nada e comecei logo à procura de emprego. Tentei desenvolver um negócio de compra e venda online, mas tem sido muito difícil”, refere. 

“De tempos a tempos, tenho de pedir ajuda aos meus amigos em Macau. Não consigo encontrar trabalho. Há muitas empresas a fechar. Em Macau, a vida era muito melhor porque tinha um bom salário”, desabafa.

Explica que a pandemia deixou o país já pobre ainda mais pobre. Culpa a teimosia e desrespeito de alguns por não respeitarem as regras que podiam evitar o risco de contágio, e acrescenta os obstáculos à circulação, reduziram ainda mais as hipóteses de trabalho. “Apenas alguns veículos estão autorizados a circular. Sorte de quem tem um transporte próprio porque pode ir para outras terras”, lamenta. 

Vangie Quines vivia na região desde 2009, onde começou com um salário de 2.400 patacas. No último dos três trabalhos que teve entretanto, ganhava 4.500. Aos 43 anos, está de volta a casa sem emprego, sem perspetivas e com esperança de voltar a Macau. Em Manila, impedida de sair para a ilha do Mindoro, de onde é natural, por causa do confinamento no país, reforça que tem sido duro. “Não sou daqui, não tenho rendimentos nem mesmo para comprar bens de primeira necessidade e comida.”

Yurie Bacanto

Yurie Bacanto decidiu abandonar Macau quando o marido perdeu o emprego num restaurante, que fechou devido à crise. Embarcaram no mesmo voo de Vangie Quines, a 18 de junho, com mais três centenas de filipinos retidos em Macau pela interrupção das ligações aéreas entre os territórios. “Todos os nossos planos foram por água abaixo. Tínhamos decidido ter o nosso primeiro filho em Macau, mas depois de o meu marido ter sido despedido, não tivemos alternativa senão vir embora. Já estava grávida e também sem trabalho”, explica. 

Até aí, era ajudante de cozinha no Café Bro Mao, onde ganhava 6.500 patacas mais as 500 de subsídio de residência, obrigatório por lei. 

Os meses que o casal ainda permaneceu em Macau foram possíveis graças à ajuda da irmã, que lhes deu comida e cama, apesar de também ela ter ficado desempregada por causa do impacto da pandemia. 

Grávida de sete meses, ambos desempregados e sem meios para pagar o parto na cidade – 200 por cento do valor normal para quem é de fora -, viram-se obrigados a voltar às Filipinas e à casa da mãe. Só assim, sublinha, se conseguem aguentar. “Ainda não encontrei nada. Não é fácil e mesmo que consiga, o salário nunca será igual ao de Macau.”

Acrescenta ao rol de contrastes os subsídios de luz e água concedidos pelo Governo em Macau, e que aliviam as despesas mensais. “Nas Filipinas, com ou sem emprego, temos de continuar a pagar contas. E aqueles que o dinheiro só chega para a comida? O Governo não é bom”, critica. “Como é possível conseguirmos um emprego? As empresas pedem experiência e formação, às vezes superior. E aqueles que nem dinheiro têm para estudar? É por isso que a maioria decide emigrar.”

Se puder, quer voltar ao território, onde viveu três anos e meio. “E continuar a perseguir o sonho de um dia poder ter uma casa nas Filipinas.” 

Sheryl Reponte

Quase ao mesmo tempo, Sheryl Reponte, de 39 anos, deixava Macau. A 29 de junho, após um ano e meio a viver na cidade, foi noutro grupo de centenas de repatriados. Depois de perder o emprego, a solução foi voltar a casa. “Vivo com os meus pais e irmãos. Toda a minha família depende de mim porque sou a mais velha. Foi por isso que perder o emprego em Macau foi ainda mais complicado”, conta.

O desfecho foi o resultado de uma mistura entre o contexto de pandemia com o da nova lei de trabalhadores não-residentes (TNR) que, segundo o Governo, visa “resolver a questão da entrada em Macau de não-residentes na qualidade de turista, adquirindo posteriormente o estatuto de TNR” e evitar os casos de não-residentes “aproveitarem o restante período legal de permanência para continuar à procura de emprego”.

Reponte trabalhava como empregada doméstica. Diz que passava fome e trabalhava mais de 12 horas diárias por 4.600 patacas. Isto a juntar às discussões com a patroa, levaram-na a deixar esse emprego. Ouviu um sim compreensivo. Encontrou trabalho duas semanas depois, mas de nada lhe valeu.

A empregadora tinha-lhe cancelado o visto de trabalho e como tal foi obrigada a sair. “Não era fácil trabalhar ali e piorou quando o vírus surgiu. A minha patroa obrigou-me a ficar como interna. Estive dois meses fechada em casa durante o período mais complicado da pandemia. Tinham medo que fosse infetada e que depois os contagiasse”, relata. 

Sem dinheiro, também recorre aos amigos que se mantém em Macau, a quem pediu ajuda para começar um pequeno negócio de venda de produtos alimentares e de uso diário na cidade de Davao, onde vive. “Não chega para me sustentar, nem mesmo para comprar comida. O Governo prometeu que nos daria subsídios para começarmos novos negócios, mas ainda não recebi nada.”

Iam Yuni

Ainda está em Macau, mas só por causa da pandemia. O motivo que permite que permaneça é também aquele que a deixou sem emprego. A empresa de limpezas para a qual trabalhava não lhe renovou o contrato, que terminou a 31 de outubro. Presa em Macau pela ausência de voos para a Indonésia e sem bluecard, as autoridades vão-lhe estendendo o visto a cada 20 dias. Sobrevive, mas com enormes dificuldades. “Tudo se complicou”, afirma. 

Desde que está em Macau, desde 2014, Iam Yuni, de 34 anos, foi também empregada doméstica e de mesa. Confessa que não quer deixar a região onde prefere as condições às de Singapura, Hong Kong e Malásia, onde trabalhou antes. “Mas, vou ter de voltar à Indonésia ou ir para Hong Kong ou Coreia, e tentar conseguir um visto de trabalho”. De uma coisa está certa: “Não quero trabalhar na Indonésia. O salário é muito menor”. 

As alterações à lei de trabalhadores não-residentes, acrescenta, veio complicar um cenário já de si dramático. Desde que foi alterada, a nova legislação obriga a que os emigrantes só possam vir para Macau através de uma agência de trabalho, à qual têm de pagar uma comissão. O investimento inicial faz com que os emigrantes se endividem e hipotequem os salários que ainda nem receberam. “A comissão sai muito mais cara do que se viermos como turista e depois procurarmos”, diz. 

Se ficasse em Macau, explica, a comissão seria de 4.300 patacas, que poderia pagar em duas parcelas. Se estiver fora, a taxa sobe para cerca de dez mil patacas que pode abater em cinco prestações de duas mil. “Uma empregada doméstica ganha cerca de cinco mil patacas – 4.300 de salário mais 200 patacas de transportes e 500 de subsídio de renda”, aponta, para explicar como tudo se agravou para quem vinha para Macau à procura de oportunidades. 

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