Ex-senhores da guerra são agora emissários de paz na RDCongo - Plataforma Media

Ex-senhores da guerra são agora emissários de paz na RDCongo

Antigos senhores da guerra são agora emissários pela paz em Ituri, um dos muitos focos de violência do país e uma região onde eles próprios semearam o terror nos anos 2000.

“Peço que privilegiem a paz. Eu passei 15 anos na prisão”, diz o ex-senhor da guerra Floribert Ndjabu a milicianos reunidos perto de Masumbuko, um vilarejo remoto da província de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo.

Ao seu lado, o general Germain Katanga, condenado em 2014 pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra, mantém-se vigilante diante dos membros de um grupo acusado do massacre de centenas de civis.

“Não são meninos de coro”, aponta o general Katanga, libertado da prisão no início do ano, tal como Floribert Ndjabu.

Junto com meia dúzia de outros condenados que cumpriram as suas penas, os dois homens foram enviados pelo presidente da RDC, Félix Tshisekedi, como emissários pela paz em Ituri, um dos muitos focos de violência do país e uma região onde eles próprios semearam o terror nos anos 2000.

A missão: desarmar os milicianos da Cooperativa para o Desenvolvimento do Congo (Codeco), uma seita político-militar que afirma defender os lendu, uma comunidade local, principalmente de agricultores.

Os membros da Codeco são acusados de terem matado centenas de civis desde dezembro de 2017. 

“A grande maioria das vítimas parece ter sido assassinada por pertencer à comunidade hema” – criadores de animais e comerciantes -, segundo as Nações Unidas, que temem possíveis “crimes contra a humanidade”.

“Nosso respeito, presidente”

Para chegar à mesa de discussões, os emissários da paz percorreram a estrada entre a capital Ituri, Bunia, e o território de Djugu, epicentro da violência.

Enquanto o comboio deles passava, escoltado pelo Exército, dezenas de combatentes saíram da floresta. Alguns carregando armas de todos os calibres, centenas de munições, lanças e facas.

O chefe da delegação, Floribert Ndjabu caminha até eles, apresenta-se e ordena: “Subam no grande veículo atrás”. “Nosso respeito, presidente”, respondem os combatentes, que assim o fazem.

Eles reconhecem-no como presidente da Frente dos Nacionalistas e Integracionistas (FNI), grupo político armado em ação durante a “primeira guerra de Ituri”, entre 1999 e 2003.

Ndjabu foi processado, mas nunca condenado por ter ordenado o assassinato de nove soldados da paz de Bangladesh, em 2005.

No final da tarde, o comboio chega ao seu destino, no vilarejo de Masumbuko.

Em traje civil, ou em uniforme militar “emprestado” do Exército, os milicianos desfilam com as suas armas: lança-foguetes, metralhadoras, fuzis. Bastante indiferentes, os habitantes os observam de longe.

Visivelmente envolvidas com esta seita político-militar, cerca de 20 crianças caminham em procissão, vestidas de branco. Meninas cantam hinos para a glória do “general Ngudjolo”, um líder da milícia Codeco morto no início deste ano pelo Exército.

“Somos irmãos”

As discussões começam no dia seguinte, depois da leitura de versículos da Bíblia sob um sol escaldante. “Atacantes, escutem a voz de Jesus”, entoam os milicianos.

Floribert Ndjabu pode, então, entrar no cerne da questão: “O chefe de Estado enviou-nos para sensibilizá-los, a fim de acabar com as hostilidades”.

“Entendo as vossas frustrações, mas vocês não podem virar o território de cabeça para baixo. Devemos deixar o Estado e as autoridades fazerem o seu trabalho”, acrescenta Germain Katanga.

Um líder religioso da milícia Codeco não está convencido: “Estamos a lutar contra o Exército e a Polícia [para denunciar] as detenções e prisões arbitrárias do nosso povo”, lança o pastor Ngadjole Ngabu.

E acusa também os hema de estarem em conluio “com os militares” na caça aos combatentes lendu.

“Tirem da cabeça que os hema são seus inimigos, ou que são maus. Sou lendu como vocês, mas passei a noite na casa de uma família hema. Somos irmãos”, reage Floribert Ndjabu.

A discussão termina. “Concordamos assim: no momento em que o chefe de Estado atender ao seu (pedido) de integração ao Exército, ou à Polícia, tudo ficará bem”, espera Germain Katanga, vestido com seu uniforme militar de general.

“Se me veem fardado, é porque aceitei o processo (de paz)”, insiste.

Reduzir a violência

No momento da partida da delegação, milicianos exaltados tentam bloquear o comboio, obrigando os emissários a novas discussões. 

O comboio finalmente sai de cena ao anoitecer.

Ao se aproximar de Bunia, uma deflagração de armas automáticas de origem desconhecida é ouvida à distância. 

Por reflexo, Katanga, os seus homens e a escolta do Exército põem as mãos em suas armas.

O alerta passou, e o comboio segue em alta velocidade em direção a Bunia.

Desde a chegada dos enviados do presidente Tshisekedi, a violência diminuiu significativamente, de acordo com depoimentos recolhidos pela AFP em várias localidades de Ituri.

Segundo a ONU, mais de mil civis foram massacrados desde dezembro de 2017. Os civis lendu também afirmam terem sido vítimas de represálias do Exército.

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