O malandro do Covid entra na torrada mas não no guacamole

O malandro do Covid entra na torrada mas não no guacamole

Tornou-se um tópico de conversa e até de acaloradas discussões a famosa regra das oito da noite em Lisboa. Quem more na capital portuguesa ou aqui venha amiúde já sabe que a partir das oito da noite só pode beber um copo se estiver a comer. Mas a distopia ainda melhora. Não é a comer qualquer coisa. Quer dizer, pode ser mas depende do sítio. Passo a explicar: se estiver numa esplanada localizada num miradouro com uma das mais belas vistas de Lisboa, não se atreva a pedir uma torrada e um copo de vinho. Será fulminado. “Torrada simples não, isso não podemos servir. Uma tosta com guacamole sim”, disse o empregado. “São ordens”, acrescentou, perante a nossa perplexidade. E dirão, comida é comida e tanto faz desde que na mesa esteja qualquer coisa de sólido.

Não, meus amigos. Toda a gente sabe que o malandro do Covid entra numa torrada que custa 1,50 euros mas não num guacamole que pode custar de 6 a 8 euros. Ah pois! Padrõezinhos elevados senhores e vamos lá investir no abacate que até é um super alimento.

Mas se estiverem num qualquer café banal com esplanada já podem ter na mesa apenas uma imperial e um folhado de salsicha que ninguém vos incomodará. Se deixarem o mesmo folhado na mesa até às 23h00 até podem beber várias imperiais.

Isto parece surreal mas não, são exemplos bem reais do dia a dia, que demonstram o absurdo existencial imposto pela DGS.

E nessa insistente mania que temos todos de pensar, ainda cogitamos sobre a outra regra, a de ser proibido comprar álcool num supermercado ou numa bomba de gasolina a partir das oito da noite. Se for às 19h59 e as garrafas já tiverem sido registadas na caixa ainda pode. Mas se passar um minuto e ainda não tiverem sido registadas tem de as tirar do carrinho. História verídica, garanto.

Ah e quem passou pela Festa do Avante (não foi o meu caso) podia estar a beber no recinto até às oito da noite. A partir das oito amigos e camaradas só podiam beber se estivessem a comer, de preferência sentados na zona da restauração. Lá está, todos sabemos que o corona não entra numa feijoada à transmontana mas é particularmente esquisito quando o deixam sozinho a boiar num copo de plástico com cerveja morna.

Também é interessantíssima a regra de se entrar num restaurante de máscara, tirá-la assim que nos sentamos à mesa porque esta foi desinfetada, voltar a pô-la quando se vai ao WC, tirá-la novamente na mesa porque entretanto se vai provar o bacalhau, falar à vontade com o empregado que está mascarado mas nós naquele momento não estamos, e voltar a pô-la para sair do restaurante mesmo que a distância entre a mesa e a saída seja de 10 metros.

Como se tem visto, o êxito destas e de outras regras na prevenção da Covid-19 na Grande Lisboa está por demonstrar e os casos não param de subir na capital portuguesa e no país. Na quarta-feira atingiu-se até um recorde que não se verificava desde 20 de abril, com mais 646 casos diários.

Sim ao uso da máscara em espaços fechados, obviamente. Não à tirania de regras absurdas cujo efeito nem Graça Freitas nem nenhum outro especialista conseguirá explicar. Factos sobre este Verão: nenhuma autoridade evitou os grandes ajuntamentos nas praias ou na Feira do Livro, fecharam-se os olhos por causa do turismo a filas de carros à entrada de acessos para praias selvagens e não concessionadas, fingiu-se não ver determinadas esplanadas a abarrotar e sem distanciamento social em zonas particularmente concorridas.  

Não nos mintam. E como se não bastasse, a distopia lisboeta passará a ser a realidade no resto do país a partir de 15 de setembro. Que a força esteja connosco porque o que aí vem promete ser pior. Como nos anúncios dos blockbusters norte-americanos: “Beware, bewatch, hell is coming!”

*Jornalista do Plataforma

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