Entre a mentira e a desonestidade, que gente é esta? - Plataforma Media

Entre a mentira e a desonestidade, que gente é esta?

É complicado encarar a folha de papel e não ter como escrever algo sobre o lado solar de um país naturalmente brilhante como é o Brasil. Mas os tempos são sombrios. Estava decidido a, desta vez, ao quinto texto, escrever sobre a resiliência deste povo, a sua capacidade, muito rara, de sorrir quase sempre. Mas não dá… A realidade do Brasil de hoje continua a fazer inveja a muita ficção que já se escreveu por esse mundo fora.

Só nesta segunda-feira (29 de Junho) ficou a saber-se que afinal o novo ministro da Educação, que já viu o nome confirmado em Diário Oficial, mas ainda não tomou posse, mentiu em mais um capítulo do currículo e que o ministério da Saúde gastou menos de um terço da verba que tem de orçamento para o combate ao novo coronavírus.

Portanto, o ministro da pasta da Educação, já se sabia, não concluiu o doutoramento que disse que tinha numa universidade argentina, depois ficou a saber-se que há indícios de plágio na tese de mestrado, algo que desmentiu dizendo que só poderão ter-se tratado de “falhas técnicas ou metodológicas” as não citações de trabalhos que aparecem com trechos iguais sem aspas no documento, e agora a “bomba” é que Carlos Alberto Decotelli não tem o pós-doutoramento que diz, e escreveu no currículo oficial, que tem numa universidade alemã. A universidade revelou que Decotelli esteve na instituição três meses e não dois anos, como ele colocou no currículo. “”Ele não era um pesquisador de pós-doutorado na nossa universidade”, respondeu a assessoria de imprensa da universidade ao jornal Folha de S. Paulo.

Noutra pasta do governo de Jair Bolsonaro, a da Saúde, liderada interinamente há um mês por um militar, o general Eduardo Pazuello, a novidade é que foi gasto no combate à Covid-19 menos de 30% do orçamento disponível para o efeito. O Brasil conta (números de segunda-feira) mais de 58 mi mortes e tem mais de um milhão e 300 mil infectados com o vírus. Jair Bolsonaro, que está Presidente do Brasil, depois de se referir ao vírus como uma “gripezinha” e mais recentemente ter decidido homenagear as vítimas com uma Avé Maria tocada em acordeão numa “live”nas suas redes sociais, já criticou inúmeras vezes o isolamento social. O site da revista ISTOÉ conta que é crónico o problema do setor público brasileiro em executar o orçamento, mas mesmo tendo isso em conta, “em comparação com outros órgãos que receberam recursos para enfrentar a pandemia, o desempenho do ministério da Saúde deixa a desejar.”

Recuar um dia no calendário é ir parar a uma reportagem do Fantástico que revelou que mais de 620 mil brasileiros receberam indevidamente o auxílio emergencial que o governo paga por causa da pandemia. Mais de 50 milhões de pessoas receberam o auxílio, a verba é de 600 reais, menos de 100 euros, e é destinada a quem mais precisa, naturalmente, apesar de quase todos os dias surgirem relatos de quem necessita, mas não consegue a providencial ajuda. Entre quem recebeu o dinheiro indevidamente há 235 mil empresários, 134 mil funcionários públicos ou pensionistas, gente que vive em casas de luxo ou que tem carros de alta cilindrada, como uma empresária de Rio Grande do Sul que se ouve num áudio partilhado via Whastapp a dizer que já gastou tudo (terá recebido duas parcelas, 1200 reais) e que por isso afirma orgulhosa: “eu quero dar tanta risada”.

O Tribunal de Contas da União, que revelou os dados, alerta que se o caso não for travado os pagamentos indevidos vão causar um prejuízo na ordem de mil milhões de reais. A Caixa, banco responsável pelo pagamento do auxílio, revelou ao Fantástico que o ministério da Economia já cancelou o pagamento de outros 600 mil auxílios por causa de fraudes. Ou seja, são mais de um milhão e duzentas mil pessoas (!) que receberam dinheiro que é destinado a quem precisa dele para sobreviver a estes tempos de pandemia. Pessoas que se não receberem esses 600 reais muito provavelmente não vão ter o que comer, o que dar de comer aos filhos. 1. 200. 000 “pessoas”…

Vou escrever sobre sorrisos e resiliência. Sobre o sol que este povo consegue ser, mesmo no meio das mais densas nuvens. Mas hoje (ainda) não consigo…

*Jornalista

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