Evolução da cidade e preservação de edifícios

por Rute Coelho
Meimei Wong

O característico quiosque dos correios (CTT ) na Rua da Barca foi desmantelado este mês. Perdeu-se mais um pedaço de história para a população de Macau. Para aqueles que viveram os anos 80, estes quiosques não eram apenas um “acessório paisagístico”, mas sim um local que acompanhou o seu crescimento e a vida diária.

Para Pan Lei, crítico cultural, o quiosque servia, nos seus tempos de escola, para enviar cartas e cartões de Natal aos amigos que viviam no estrangeiro. Descreve o local como um espaço de serviço público que fazia parte da paisagem urbana há muito tempo. Todavia, devido ao reduzido número de pessoas que hoje em dia utiliza o quiosque para envio de correio, o equipamento passou a ser visto mais como um marco de memórias. Por isso, Pan Lei acaba por aceitar a desmontagem e a transferência do quiosque para o Museu dos Correios.

Segundo o crítico, as indústrias imobiliária e do jogo têm crescido a alta velocidade ao longo das últimas décadas, levando a que algumas paisagens e edifícios desapareçam ou continuem no meio de um ambiente em constante mudança.

“No meio da cidade em desenvolvimento, todos partilhamos da mesma vontade e esperança de que os edifícios antigos não sejam demolidos, principalmente depois de o Centro Histórico de Macau ter entrado para a lista de Património Mundial em 2005, decisão que fortaleceu ainda mais a relação afetiva da população com a história e a cultura”, diz. Fala, designadamente da faixa costeira que se estende desde o Gabinete do Chefe do Executivo até à Praia do Bom Porto e a área do Chunambeiro e que foi toda avançada, restando apenas um dique de pedra deixado pelos portugueses e que já não cumpre a sua função. “É altamente importante que tanto residentes de Macau, como pessoas de fora procurem proteger a história de Macau ao longo do desenvolvimento da cidade”, diz.

Para Rhino Lam, urbanista e anterior membro do Conselho Executivo, mais do que a preocupação do Governo e dos CTT com a opinião e sentimentos da população importa é a aparência do novo quiosque dos correios no local, uma vez demolido o original. “Se o novo quiosque possuir algumas das características e funções do original, a população vai sentir-se mais confortável. Acredito que a nível técnico não seja grande problema fazer marcos do correio com diferentes formas”, defende.

Proteger edifícios antigos Macau aprovou em 1976 uma lei de proteção de bens culturais e edifícios, que foi depois revista em 1992, passando a incluir uma nova lista de bens culturais.

A Casa Azul e Cinza foi construída entre 1918 e 1922, tendo sido o laboratório e farmácia do governo. (La Série Originale)

Em 2013 foi aprovada a “Lei de Salvaguarda do Património Cultural”. Entre 2015 e 2019 avaliaram-se 19 edifícios. “Muitos desses edifícios antigos foram protegidos devido às leis criadas ainda pelo governo português em Macau”, lembra Pan Lei, deixando um alerta: a lista não foi atualizada durante mais de 20 anos (1992-2013), deixando muitos edifícios de valor desprotegidos. Rhino Lam acredita que como muitos edifícios antigos pertencem a particulares, a luta entre o respeito pelos direitos de propriedade privada e proteção cultural tem criado muitas situações lamentáveis. “Especialmente antes da adoção da Lei do Planeamento Urbanístico e da Lei de Salvaguarda do Património Cultural, se os proprietários não quisessem proteger o edifício, essa responsabilidade recaía sobre o Governo”, acentua. Todavia, mesmo após a promulgação daquelas leis, muitos edifícios contam apenas com a proteção do Conselho do Planeamento Urbanístico. Admite que muitos podem não ser considerados património cultural, mas possuem características específicas que influenciam a comuni dade onde se inserem, podendo assim fazer parte do planeamento urbanístico.

O armazém do hospital foi construído no início do século XX (Foto: La Série Originale)

Pode apenas ser preservada a aparência exterior e o interior convertido num edifício moderno, para que os proprietários não tenham tanta dificuldade em aceitar a preservação da fachada, considera o urbanista.

O especialista fala ainda de uma situação que o preocupa e que se prende com o local destinado à construção do futuro espaço para doenças transmissíveis, onde estão dois edifícios que vêm do princípio do século XX, os quais, apesar de serem bens públicos enfrentam um futuro difícil.

O problema está na decisão do Governo (manter ou demolir o edifício) não estar justificada, além de não ter sido discutida com o público, alerta Rhino Lam. “Ninguém questiona a necessidade de construir um edifício destinado às doenças transmissíveis. Mas já que o Governo insiste tanto nessa construção, pode pelo menos discutir com o público acerca da escolha de um local menos dispendioso? Sinto que o Governo não está interessado em explicar ou discutir a possibilidade de outros locais com a população. É uma comunicação unilateral, na qual o Governo apenas expõe informação”, conclui.

Os CTT Macau, em resposta ao PLATAFORMA, esclareceram que o marco dos correios da Rua da Barca foi completamente removido do local original e transportado para um armazém da empresa. Uma máquina automática de venda de postais será instalada no anterior local onde se encontrava o quiosque. Sobre o último quiosque postal tradicional existente em Macau, já fora de serviço, os CTT Macau afirmam não existir, para já, quaisquer planos para desmantelamento.

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