Receita para um conflito - Plataforma Media

Receita para um conflito

A 25 de setembro de 1964, Alberto Chipande disparou o primeiro tiro da luta pela independência em Chai, no distrito de Macomia, em Cabo Delgado. Agora aquela província está de novo no centro de uma nova guerra. E o primeiro tiro desta nova guerra foi dado a 4 de outubro de 2017. Um feriado que marca o aniversário dos acordos de paz em 1992. A história conta na província de Cabo Delgado.

E é na história – hoje é discutida por todo o mundo, incluindo no mundo das estátuas danificadas e derrubadas – que se encontram alguns dos ingredientes para um conflito que tem passado ao lado dos holofotes dos média internacionais.

Cabo Delgado é das províncias mais pobres e muito provavelmente a mais rica de todo o território moçambicano. Há 10 anos que o anúncio da existência de reservas de gás, com importância mundial criou a expectativa de uma vida melhor, mas uma década depois a população ainda não sentiu a mudança.

Cabo Delgado é das províncias mais pobres e muito provavelmente a mais rica de todo o território moçambicano

Vamos então à receita… mistura-se pobreza – com a inerente falta de condições de saúde e educação – com gás natural, rubis, grafite e várias outras riquezas minerais. Depois acrescentam-se os conflitos étnicos, a diversidade religiosa (o islamismo faz parte da vida de Cabo Delgado até antes dos portugueses lá chegarem com a Bíblia na mão), os interesses externos – nomeadamente das multinacionais – e o cozinhado está quase pronto e tresanda a corrupção. A corrupção que chega a alguns dos elementos das forças de defesa e de segurança, que continuam com ordenados e condições de vida verdadeiramente insuportáveis.

Recentemente, o Presidente de Moçambique referiu-se ao que se passa em Cabo Delgado como um ataque externo de natureza terrorista. É provável que tenha razão. Mas os ataques naquela região também terão muito de uma revolta armada contra a injustiça.

Agora, o conflito está servido.                                 

E a receita para o consumir e fazer desaparecer tem vertentes internas e externas que não podem ser descuradas. Se se trata de um ataque externo e terrorista, não haverá forma de organizações como as Nações Unidas ou os países de língua portuguesa estarem ausentes das tentativas diplomáticas de o travarem. Mas a solução não é apenas diplomática, nem sequer militar. E aí entramos na frente interna. A intervenção de curto prazo, para impedir que as mortes continuem e que os deslocados se amontoem, terá de ser acompanhada por um trabalho de longo prazo, mais estrutural, que ajude a resolver os problemas económicos e a distribuir a riqueza. Sem isso… os ingredientes continuam lá e o conflito pode voltar a ser servido a qualquer momento.

*Diretor do Plataforma

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