O medo acaba com a morte do coronavírus? - Plataforma Media

O medo acaba com a morte do coronavírus?

As perguntas na minha cabeça não param.

Será que, depois da COVID-19, vamos aceitar pacificamente as reduções de salários e de rendimentos que muitos nós agora recebem?

Será que, depois da COVID-19, vamos continuar a trabalhar num pequeno computador, em casa, na mesa da sala de jantar?

Será que, depois da COVID-19, vamos ser obrigados a endividarmo-nos excessivamente e a deixar a nossa qualidade de vida dependente da bondade de um juro e da dimensão de uma comissão bancária?

Será que, depois da COVID-19, vamos aceitar a degradação da Segurança Social, das reformas, do subsídio de desemprego, tal como aconteceu na última crise?

Será que, depois da COVID-19, vamos deixar de ter professores, por uma dúzia deles ensinar quase toda a população escolar através da internet ou da televisão?

Será que, depois da COVID-19, vamos admitir o controlo de doenças pelos dados detetados nos nossos telemóveis e a conclusão do processo de eliminação total da vida privada iniciado há 20 anos?

Será que, depois da COVID-19, depois de termos discutido o que mais valia na balança, se o prato da vida humana, se o prato da economia, não vamos pesar a diferença entre o prato da vida no planeta Terra com o prato da recuperação económica?

Será que, depois da COVID-19, nos vamos conformar com o preço previsível da vacina para a doença: 150 dólares a unidade, um negócio anual de milhares de milhão que, provavelmente, quase um terço da humanidade não pode pagar do seu bolso, nem vive em países cujos governos o possam ou queiram pagar?

Será que, depois da COVID-19, o isolamento, o nacionalismo de regresso aos países, a demagogia dos líderes, o medo do estranho, a xenofobia efervescente criará condições para disputas políticas belicistas que nos conduzam ao conflito militar global?

Ou será que os donos da globalização conseguem reagir e caminharemos para um governo mundial onde dois ou três países subjugam os outros pela comando financeiro e a ameaça militar?

Será que a paz, depois do COVID-19, deixou de ser um objetivo humano?

Está a começar o tempo da descompressão, do começo lento de um processo de saída da clausura coletiva onde nos enfiámos para fugir ao vírus da doença COVID-19.

Aos poucos sinto a alegria e a ansiedade do prisioneiro que vai voltar a ser livre e isso alegra-me, mas, como julgo acontecer com milhões de portugueses, também tenho medo, e as perguntas receosas sucedem-se.

Tenho medo, em primeiro lugar, de uma segunda vaga global de contágio do novo coronavírus.

Este medo foi-me ensinado pela História das pestes e das epidemias no mundo, que me mostra haver quase sempre uma segunda ou terceira vagas destas doenças.

A pneumónica (ou gripe espanhola, como ficou conhecida), a pandemia de há 100 anos, teve três vagas e chacinou pelo menos 17 milhões de pessoas (há quem pense que foram 50 milhões ou, até, 100 milhões).

A maior parte destas mortes aconteceu na segunda vaga, que começou em agosto depois de uma primeira, relativamente pouco mortal, ter deflagrado em março de 1918 num campo militar do Kansas, nos Estados Unidos da América.

A pressa de voltar a reanimar a economia, misturada com as necessidades impostas pelo esforço final da Primeira Guerra Mundial, levou muitos países a subestimarem a segunda vaga da pneumónica e isso agravou a mortalidade da doença.

Tenho medo que a euforia do regresso à normalidade leve a sociedade do século XXI a cometer o mesmo erro de há 100 anos e que no final do verão estejamos a ver morrer muito mais gente do que agora.

Tenho medo, em segundo lugar, dos nossos líderes.

Tenho medo da incompetência, da ignorância, da arrogância, do autoritarismo, da cupidez e da estupidez dos vários líderes de países, dos governadores de bancos, dos administradores de grandes conglomerados empresariais, dos gestores de gigantescas quantias de capital, dos comandantes do negócio da guerra e dos capitães da indústria farmacêutica, das relativamente poucas pessoas, enfim, que têm nas mãos o futuro de todos nós, seja nos governos, seja nas empresas.

Com a economia tão fragilizada pela paragem de atividade neste início do ano, a ambição de recuperar depressa vai ser gritada por milhões de trabalhadores e de pequenos empresários, que enfrentam o desemprego, a perda de rendimentos e a pobreza.

Essa exigência, esse grito legítimo de “salvem a economia”, facilita o caminho para a manipulação das massas e para o regresso da ganância, do abuso dos mais poderosos sobre os mais frágeis, da aceitação compungida da degradação das condições de vida em troca de um mínimo de recursos de sobrevivência para o cidadão comum e de aumento de riqueza e poder para os senhores do costume.

É isso, também, o que a História dos séculos XX e XXI nos ensina: que aqueles que, no início de uma crise ou de uma depressão, acusamos de serem culpados pela miséria e exploração, são normalmente os mesmos que fazem a gestão da recomposição da sociedade, em função dos seus próprios interesses de curto e médio prazo, secundarizando os interesses mais perenes de toda a sociedade.

Todos os receios sobre o novo mundo pós COVID-19 que eu tenho são, afinal, receios do velho mundo, defeitos que herdámos e que, ao contrário do que possa parecer, podem agravar-se. Por isso, tal como antes, temos de nos manter atentos, vigilantes e exigentes face a todos os poderosos deste planeta.

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