III. Os efeitos da Covid-19 nas cidades - Plataforma Media

III. Os efeitos da Covid-19 nas cidades

No dia 29 de setembro de 1918, no auge da segunda vaga de Gripe Espanhola, a Direção Geral de Saúde anunciou seis medidas para combater a pandemia. Três delas estavam direcionadas ao poder local – organizou a assistência clínica em torno dos “médicos municipais” (medida 4), dividiu os concelhos em “zonas médicas e farmacêuticas” (medida 5) e ordenou que as câmaras municipais criassem “comissões de socorro” (medida 6). O efémero governo nacional de Sidónio Pais precisava das cidades para combater a doença, ainda que, na altura, apenas 20% da população vivesse em áreas urbanas.

Em 2020, a percentagem é de 65%, mas nos anúncios públicos matinais da Direção Geral de Saúde para combater a COVID-19, o papel das autarquias não tem sido salientado. O governo é o timoneiro e a tripulação.

Num país de tamanho de bolso e culturalmente uniforme, como Portugal, é possível, previsível e desejável que seja o governo a salvaguardar a coesão e eficiência das medidas públicas. Mas a sua implementação tem que ser descentralizada, em ações que deem um lastro de responsabilização às câmaras municipais, poder que está mais próximo à população. É nas cidades que veremos os impactos negativos da pandemia e será também aí que irromperão muitas das mudanças na forma como trabalhamos, socializamos e nos comportamos, num mundo pós COVID-19.

Os arquitetos e urbanistas terão que reinventar o conceito de lugar partilhado, público e privado, para torná-lo maleável às cíclicas necessidades do distanciamento social. A arquitetura é um espelho da sociedade. Da mesma forma que os imóveis em Israel têm, por lei, um bunker de proteção (merkhav mugan) ou espaços públicos na Europa têm que ter WCs para pessoas com deficiência, refletindo a importância que os europeus atribuem à liberdade e à dignidade humana, também os arquitetos terão que começar a criar espaços (em casa, nas ruas, nos escritórios) que possam rapidamente ser adaptados a momentos pandémicos.

Se no século XIX, como resultado das pestes, das febres e da cólera, os engenheiros tiveram que inventar uma forma de abastecer todas as casas com água e de extrair dejetos, o que deu origem ao moderno sistema de saneamento público, também os novos arquitetos terão que pensar em como construir passeios públicos que possam ser rapidamente alargados, permitindo o distanciamento entre peões. Ou como adicionar áreas de controle biológico em aeroportos, além dos tradicionais controles fronteiriços e de bagagem.

Os transportes públicos urbanos também terão que se adaptar. Muitos de nós iremos resistir meses, quiçá anos, até voltar a entrar num autocarro. A autoridade parisiense de transportes (Ile-de-France Mobilités) já solicitou um 1 mil milhão de Euros ao Estado francês para poder atenuar a quebra de receitas. Na Itália esse valor é de 1,1 mil milhão de Euros até ao final do ano. Na área metropolitana de São Francisco, os bilhetes de transporte do BART respondem por três quartos das receitas. Os problemas financeiros das empresas de transportes, instigados pela falta de passageiros, prolongar-se-ão por anos.

Com isso, crescerá o transporte individual ou por aplicações que disponibilizarão carros sanitizados. As caminhadas para o trabalho e a bicicleta serão também mais comuns. Cada vez mais trabalharemos e socializaremos dentro de um pequeno raio geográfico, em pequenas comunidades de proteção dentro de cidades. Crescerão os condomínios de ricos.

A tecnologia permitirá localizar, em tempo real, os bairros como maior incidência de infeções, levando à criação de áreas sanitárias temporárias, com diferentes tipos de castigo à mobilidade. Tal como em Beirute entre 1975 e 1990, poderemos ter linhas divisórias urbanas, não entre bairros cristãos do Leste e zonas muçulmanas do ocidente, mas entre comunidades mais e menos infetadas.

Em qualquer crise pandémica a mobilidade é a primeira a morrer. O ingresso da Gripe Espanhola em Portugal deveu-se ao regresso a casa de trabalhadores sazonais alentejanos vindos da Extremadura espanhola. Consequentemente, muitas das medidas determinadas na altura pelo higienista Ricardo Jorge tiveram como princípio refrear o trânsito de pessoas.

Na Gripe de 1918, pequenas urbes, como Gunnison nos EUA ou Amieiro em Portugal, só sobreviveram porque ergueram barricadas, controlaram as entradas e impuseram quarentenas obrigatórias a visitantes. Talvez no futuro não tenhamos que viajar frequentemente porque poderemos fazê-lo através de Realidade Aumentada e Realidade Virtual 4D. Mas se, exoticamente, quisermos fazer alguma deslocação longa talvez tenhamos que sujeitar-nos, em períodos de surtos epidémicos, a controles físicos e biológicos.

A sedentarização inspira a municipalização do poder. Os presidentes de câmara ou governadores estaduais ganharão um estatuto presidencial. Como é a nível local e regional que pulsa a batalha contra o vírus, é ao nível dos seus olhos que a população procurará os seus líderes.

Madrid oferece um exemplo interessante. Tanto na Gripe Espanhola quanto na COVID-19 os presidentes da câmara da cidade – Luis Silvela y Casado em 1918 e José Luis Martínez Almeida em 2020 – avolumaram um significativo capital político por terem rapidamente imposto medidas preventivas e por terem mostrado contundência e discernimento, contrariamente ao governo nacional.

A dilatação política de um presidente de câmara geralmente pressupunha a conquista de um espaço nacional. O governo do país era a ambição maior. Mas no futuro isso não deverá ser sempre verdade. As cidades poderão ser um princípio e um fim político, desde que elas sejam cada vez mais internacionalizadas e globais. A paradiplomacia – relações internacionais conduzidas por entidades públicas subnacionais – ganhará cada vez mais envergadura. Muitas cidades e estados federados contam com centenas de funcionários internacionais e, cada um, com dezenas de representações oficiais no estrangeiro. O Estado de São Paulo, por exemplo, tem escritórios na China e nos Emirados Árabes Unidos. Algumas cidades portuguesas já seguem algum tipo de orientação para se coserem com o mudo, mas o trabalho é ainda muito artesanal e reativo.

Paradoxalmente, por favorecer a imobilidade e municipalizar o poder, a COVID-19 é uma oportunidade para as cidades se projetarem além das suas fronteiras.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group e professor na Nova School of Business and Economics (Nova SBE). A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial

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