Comer em Macau como em Lisboa ou no Porto - Plataforma Media

Comer em Macau como em Lisboa ou no Porto

A cozinha, para Pedro, não foi amor à primeira vista. Não por não gostar, mas sim porque, desde muito jovem, entrou “no ramo” para ajudar no restaurante dos pais. “Isto cresceu um bocadinho por força dos meus pais. Tinha 10 anos quando abriram um restaurante e não queriam estar a empregar muita gente. Nós [Pedro e o irmão] fomos obrigados desde cedo a aprender o que a minha mãe fazia”.

O gosto pela cozinha foi aumentando ao longo dos anos, assim como o conhecimento e a técnica. “Assim que tive idade para estudar nesta área, ingressei na Escola Profissional de Chaves, no curso de cozinha, pastelaria e gestão hoteleira. Durante o curso comecei a trabalhar no Casino Solverde. Fazia os turnos da noite enquanto estudava de dia”.

Apesar da agenda ocupada, Pedro confessa que o curso “foi excelente para aprender as bases técnicas”, mas “foi um bocadinho feito com uma perna às costas”.

“Era fácil. A exigência da escola não se comparava com a realidade que eu já vivia fora dela”, lembra.

Já fora do curso, o jovem chef teve a primeira experiência num restaurante de um hotel que tinha como como objetivo conquistar uma estrela do famoso guia gastronómico Michelin. O estágio durou um mês… até ao hotel fecha. E partiu para uma nova aventura. “Na ocasião fui convidado para abrir um restaurante totalmente diferente da realidade anterior. Tinha algumas características que ainda não dominava, sobretudo na área da gestão, que acabei por aprender quando surgiu a oportunidade de abrir a churrasqueira. A especialidade eram pratos tradicionais portugueses com churrasco. Tinha então 18 anos”, diz.

Esta mudança, assegura, foi crucial para o desenvolvimento profissional.

“Pela primeira vez fui chef. Foi muito bom. Era um restaurante onde trabalhava muito, muito mesmo. A responsabilidade, que falta a muitos, aumentou consideravelmente. Muitos saem da escola e querem fazer currículo rapidamente, até aos 27 ou 28 anos. Esquecem-se de que, quem cozinha, não só trabalha com os grandes chefes mas também tem de ganhar, por conta própria, muita responsabilidade. Vejo isso quando, por vezes recebo ex-colegas. Nunca foram chefes, nunca estiveram na área da gestão, só foram cozinheiros. Sinto que, se não mandar fazer, não têm responsabilidade para olhar à volta e saberem o que é preciso fazer”, lamenta Pedro Almeida.

A proposta de vir para Macau surgiu, inesperadamente através de uma página de Facebook que criou com o irmão. “Tenho uma página onde diariamente se postam produtos para venda, mas também ofertas de emprego. Aparecem ali pessoas a procurar cozinheiros, managers, enfim, tudo o que seja relativo à hotelaria. Foi aí que Fernando Marques postou que precisava de um bom chefe para Macau e comecei a pensar no assunto”, recorda.

Pedro Almeida diz ter-se sentido seduzido pela cultura e pela língua, e justifica: “Quando apareceu Macau como opção, com um patrão português, fiquei mais à vontade”, esclarece. E isso também porque a língua inglesa não era o seu forte e Macau posicionou-se como uma região excelente para manter o contacto com as raízes portuguesas mas também poder explorar outras riquezas.

“Tivemos três meses de adaptação. Ao fim desse período o meu inglês melhorou muito. As pessoas começaram a aparecer no restaurante Toca (onde começou) porque era algo que não se estava a fazer muito em Macau”, assume Pedro.

O jovem chef tem poucas dúvidas: a comida portuguesa em Macau é mal retratada por quem a confeciona e dá azo a ideias erradas sobre a sua essência. “A gastronomia portuguesa em Macau está bem presente. Mas nem sempre é bem representada e interpretada por quem a prova. Temos de explicar as origens para reeducar o cliente que pensa que sabe o que é cozinha portuguesa e, infelizmente, não sabe. A culpa não está no cliente, mas sim do proprietário ou chef que não têm uma cozinha autêntica portuguesa”, atira.

“O problema em Macau é que não se evidencia da melhor maneira a cozinha portuguesa. No Toca era isso que acontecia. Levámos Portugal à mesa, com coração e alma. Foi uma primeira experiência muito boa”, lembra.

Para Pedro Almeida mudar de continente, não implica mudar o paladar. “Quem está nisto sabe que há dois ou três componentes que temos que adaptar ligeiramente, sendo o sal e o açúcar os principais. Se o fizermos ligeiramente não estamos a fazer nada de errado e não alteramos a química do prato. A alma portuguesa continua lá. E é, até, uma alteração é saudável. Até mesmo em Portugal já se nota essa evolução”.

E no Albergue 1601, o que se pode esperar? “Queremos que o cliente tenha não só uma boa refeição, um bom serviço num espaço emblemático, mas também que se sinta num contexto autenticamente português. Que sinta que estava a comer em Lisboa ou no Porto”, conclui.

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