China testada na indústria global - Plataforma Media

China testada na indústria global

Edmund Loi, membro do Conselho para o Desenvolvimento Económico de Macau e professor no Centro de Estudos Económicos, Políticos e Sociais do Instituto Politécnico de Macau, diz, em entrevista ao PLATAFORMA, que acredita que o impacto do surto de coronavírus na principal indústria de Macau, o jogo, não será um problema a longo prazo. Porém, como fábrica do mundo, a China deve reavaliar a posição na cadeia industrial global.
O novo coronavírus continua a espalhar-se por todo o mundo, deixando a economia mundial coberta de incertezas. E embora a epidemia tenha já sido controlada na China, o primeiro país a ser afetado, agora é necessário promover a recuperação económica e manter medidas de controlo e prevenção contra o coronavírus. Ao comentar o impacto do surto na economia chinesa, Edmund Loi relembra que em 2003, no surto da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS na sigla inglesa), a China tinha acabado de entrar para a Organização Mundial de Comércio (OMS), não estando ainda completamente envolvida no comércio mundial, tendo uma percentagem de indústria de serviços ainda pequena. Agora que a indústria terciária do país tem uma maior relevância, restauração, comércio, transportes e turismo irão sofrer impacto, por isso o abalo económico deste surto será largamente superior ao de 2003. “Esta situação cria grandes exigências à capacidade de administração do Governo”, afirma Loi acrescentando: “Em 2003, depois do surto estar controlado, foi possível ver um reequilíbrio, mas atualmente, além do surto, é preciso ter ainda em conta a recuperação económica e a integração nos mercados internacionais”.

E acrescenta: “a gravidade do impacto será avaliada com base na integração entre a China e o resto do mundo. Dependerá da eventualidade de trabalharem em conjunto, ou se, pelo contrário, cada um apenas toma conta de si. Este surto serve como um teste para descobrir se afinal somos nós que precisamos do mundo ou se é o mundo que precisa de nós”. Loi dá como exemplo o iPhone. Há 10 anos a China representava apenas 3 por cento de valor acrescentado na respetiva cadeia industrial, agora representa 10 por cento. Vários dos componentes, incluindo tecnológicos, podem ser adquiridos na China sem recorrer à importação. “A China era a fábrica do mundo, produzindo e dando resposta às respetivas necessidades. Mas agora a produção, como a de máscaras, por exemplo, serve para responder às próprias necessidades do país. Será esta procura nacional suficientemente sustentável ao ponto de poder impulsionar a economia chinesa, como os EUA ou outro país consumidor? Se a economia mundial cair, poderá apenas o consumo chinês substituir o impulso da economia do resto do mundo? Este é o verdadeiro problema”.

RELAÇÕES AFETADAS

“Os EUA estão agora a baixar voluntariamente os impostos sobre produtos de saúde pois necessitam de os importar da China. Porém esta situação poderá fazer com que o país compreenda que, para evitar uma alta dependência em outros países, precisa de produzir nacionalmente. Todavia, se toda a gente começar a própria produção e o comércio diminuir, as chances de entrarem em guerra também aumentam”, prevê. Sobre o impacto do surto na economia de Macau, Loi diz que a indústria do jogo não irá entrar em prejuízo nem registar lucros e que, devido aos anos de acumulação e à capacidade de ajustar meios, as grandes empresas continuarão a “conseguir aguentar-se”. Ao mesmo tempo, salienta que existem sempres ciclos negativos na economia e nos investidores, a longo prazo, que veem estes momentos como uma oportunidade para ajustar e expandir o investimento. “Atualmente, a economia não está na melhor situação e por isso o Governo está preocupado. Alguns projetos de grande investimento podem, no entanto, ser alargados por vontade do Governo e por ser mais fácil, agora, recrutar mão-de-obra a baixo custo”, lembra. “A avaliar pelo atual desenvolvimento, Macau irá continuar como o centro da indústria do jogo ao longo da próxima década. A longo prazo, para as empresas, o investimento não deve mudar devido a um pequeno surto. Assim sendo, embora as empresas estejam a perder dinheiro atualmente, estão a aguentar-se, assumindo responsabilidade social, consumo local, revelando confiança no Governo, não sugerindo haver grande ameaça para a indústria do jogo a longo prazo”, diz. Se a indústria continuar estável, Loi acredita que a receita poderá ajudar à sobrevivência das pequenas e médias empresas (PME´s) que dependem do jogo e do turismo. A direção dos Serviços de Economia e os bancos irão oferecer empréstimos excecionais a estas PME´s, para ajudar a resolver problemas relacionados com baixo fluxo de capital a curto prazo. Todavia, salienta, ainda demorará até ser visto algum efeito das medidas do Governo, e por isso as empresas terão de garantir com os próprios meios a sobrevivência durante alguns meses. Mas para a economia geral de Macau, “a longo prazo, não há razão para preocupação.” 

Edmund Loi
Doutorado em Economia Nacional na Faculdade de Gestão Guanghua da Universidade de Pequim e é atualmente professor no Centro de Estudos Económicos, Políticos e Sociais do Instituto Politécnico de Macau. Trabalha em investigação na área do turismo do jogo, finanças e economia regional. Atualmente é membro do Conselho para o Desenvolvimento Económico de Macau e do Conselho do Planeamento Urbanístico

Wendi Song 20.03.2020

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