Grande Baía e sino-lusofonia são apostas face a dependência do jogo - Plataforma Media

Grande Baía e sino-lusofonia são apostas face a dependência do jogo

Economistas responsáveis pelo BNU, Fórum Macau e Instituto de Estudos Europeus defenderam que o projeto da Grande Baía e a cooperação sino-lusófona podem combater a dependência do jogo e potenciar a diversificação da economia de Macau, numa iniciativa conjunta da Fundação Rui Cunha e do PLATAFORMA.

No debate “20 anos de Região Administrativa Especial de Macau – Ontem Hoje e Amanhã”, o secretário-geral adjunto do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa sublinhou que o projeto da Grande Baía “é uma oportunidade que Macau não pode perder”, numa referência à ideia de Pequim de se criar uma metrópole mundial que integra Hong Kong, Macau e nove cidades da província chinesa de Guangdong, numa região com cerca de 70 milhões de habitantes e com um Produto Interno Bruto (PIB) que ronda os 1,2 biliões de euros.

Rodrigo Brum lembrou que “já na administração portuguesa se falava da necessidade de diversificação da economia” e frisou que, apesar do objetivo de vários governos, hoje “a exposição ao jogo é ainda maior”.

O responsável disse estar convicto de que, para além do desafio que é o projeto da Grande Baía, a plataforma sino-lusófona de cooperação comercial tem um potencial que pode ultrapassar o valor atualmente associado à exploração do jogo em Macau.

Em sintonia, num debate sobre os 20 anos da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), o presidente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) afirmou que a própria instituição tem como ambição reforçar a sua aposta na região da Grande Baía para apoiar os seus clientes.

“Faz sentido propor ao acionista fazer mais coisas do lado de lá [interior da China]” e que o fundo de investimento sino-lusófono existente – na ordem dos mil milhões de dólares (900 milhões de euros) – fosse capaz de garantir investimentos em Portugal, disse Carlos Alvares no encontro realizado na Galeria da Fundação Rui Cunha, no dia 12 de dezembro.

Já o presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau, José Sales Marques,  destacou também o facto de o projeto da Grande Baía poder desempenhar um papel crucial na diversificação da economia do antigo território administrado por Portugal, mas alertou que deve existir “alguma paciência” face à forte dependência do jogo em Macau.

José Sales Marques recordou, de resto, que foi o próprio Instituto de Estudos Europeus que em 2003 lançou a ideia de se criar a plataforma Creative Macau, um contributo para a política de diversificação que as autoridades dizem querer prosseguir através da criação de indústrias criativas.

O Governo de Macau deverá chegar ao final do ano com um excedente orçamental de 9,6% do PIB, um ligeiro decréscimo face aos 12,2% registados no ano passado, mas ainda assim excecionalmente elevado face à média dos países analisados pela agência de notação financeira Fitch, que nota ainda que o território deverá ter reservas externas no valor de 136% do PIB.

Dualidade Jogo-Património 

A liberalização da indústria do jogo, com os primeiros casinos de capital estrangeiro a abrir as portas em 2004,  é a marca d’água na RAEM. Nos primeiros dois anos após a transição, Macau vivias dias de recessão económica, que se prolongavam desde os últimos dois anos ainda sob administração portuguesa. “Havia a necessidade de ser dado um impulso à economia e a abertura do sector do jogo foi um elemento primordial  para que fosse possível esta dinâmica”. Todavia, Macau só ultrapassou Las Vegas  como capital mundial do jogo graças a medidas como o programa  A concessão de vistos individuais de turistas da China continental, em 2003.  A medida permitiu uma expansão do jogo e do turismo ao ponto de, no final deste ano, Macau poder ultrapassar a barreira dos 40 milhões de visitantes, um valor significativo para uma cidade com cerca de 660 mil habitantes, num espaço de apenas 33 quilómetros quadrados. 

Ano após ano arranha-céus irromperam na silhueta da península ao mesmo tempo que a zona de aterros entre as ilhas de Coloane e Taipa – o Cotai – nascia a cidade do jogo, com mega-resorts com luzes néon de encher o olho. Com este crescimento fulminante, a cidade e a sociedade tiveram que se adaptar a uma realidade urbana e social em constante mudança.  Macau passou a viver com uma identidade dupla oscilando entre a velha Macau do Centro Histórico que foi classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade e a “Nova Macau”, dos casinos e “novo riquismo”. A Arquiteta Maria José Freitas, residente em Macau há três décadas e uma das vozes que tem procurado pensar a cidade, salienta que “Macau a partir de certa altura passou a  viver entre a liberalização do jogo e a entrada na lista de Património da UNESCO, o que ditou dois ritmos, dois parâmetros para o espaço urbano”. A emergência dos grandes espaços arquitectónicos dos novos casinos juntamente com influxo massivo de turistas da China continental vieram moldar Macau ao longo de 15 dos 20 anos como RAEM.  

José Carlos Matias 19.12.2019

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