Mar de ideias - Plataforma Media

Mar de ideias

Na China os slogans políticos desempenham um papel crucial na mobilização da sociedade para campanhas ou estratégias de desenvolvimento. São frequentemente compostos por quatro caracteres e fáceis de memorizar e disseminar, à semelhança do que sucede com os provérbios – conhecidos como Chengyu (成語) – que refletem a milenar sabedoria chinesa.
Nas últimas quatro décadas, cada líder deixou um legado traduzido em slogans que materializaram contributos políticos e teóricos que rapidamente foram reproduzidos de forma omnipresente na propaganda, na narrativa plasmada nos meios de comunicação social e no discurso dos dirigentes. Com Deng Xiaoping tivemos a Reforma e Abertura (gaige kaifang – 改革开放); Jiang Zemin lançou a Teoria das Três Representações (Sange daibiao -三个代表); Hu Jintao trouxe a Sociedade Harmoniosa (hexie shehui – 和諧社會) e com Xi Jinping temos, entre outros, internamente o Sonho Chinês (zhongguo meng -中國夢) e com dimensão externa e global Uma Faixa Uma Rota (yidai yilu – 一带一路). Neste contexto da Nova Era, Macau fica incumbido de encaixar a sua ação externa no desiderato da Faixa e Rota, tendo como pontos cardeais para o seu desenvolvimento o conceito Um Centro Uma Plataforma (yixhongxin yipingtai 一中心一平台): um Centro mundial de turismo e lazer e uma Plataforma sino-lusófona. Fazendo tudo isto sentido, muitas vezes ouvimos os mais altos dirigentes da região a reproduzir este e outros slogans de forma vácua e sem a criatividade para preencher com conteúdo, visão e pensamento próprios as linhas gerais que vêm de Pequim. A proclamação deve ser acompanhada por uma ambição que só se poderá concretizar através da abertura liberta da pequenez dos interesses de curto prazo de uma elite local sofrível.
Não terá sido por acaso que o Chefe do Executivo foi a Pequim assinar o documento de apoio de Macau à Iniciativa Faixa e Rota no dia seguinte ao memorando de entendimento sobre a participação de Portugal no mesmo projeto. Com a parceria estratégica luso-chinesa a ser elevada a um novo patamar, Macau tem mais uma oportunidade de mostrar o seu valor acrescentado e desdizer os cínicos que teimam, em surdina, em relegar o papel da cidade para uma nota de rodapé na dinâmica sino-lusófona. As boas ideias ganham vida própria e afinal todos os rios correm para o mar (haina baichuan – 海納百川).

José Carlos Matias 14.12.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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