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Foi há 34 anos  que um presidente da República Popular da China visitou Portugal pela primeira vez. Todavia, ao tempo, o cargo de chefe de Estado era pouco mais que cerimonial. Li Xiannian era um dos “Oito Imortais” que tinham uma palavra a dizer no que de mais importante acontecia na China, mas o seu papel acabou por ser secundarizado face ao peso e preponderância de Deng Xiaoping. Na altura, naquele mês de novembro de 1984, as negociações sobre o futuro de Hong Kong estavam praticamente finalizadas, estando prestes a ter início as conversações que iriam desaguar na Declaração Conjunta sobre Macau.

Nas vésperas da visita de Xi Jinping a Portugal – a quarta de um chefe de Estado chinês a Lisboa – esse passado parece ser, de facto, um país e um mundo distantes. Em Pequim esta deslocação tem sido preparada ao milímetro nos últimos meses, sendo claro que há uma aposta forte no sucesso de uma visita que surge numa altura em que os laços políticos, económicos, educacionais e  culturais entre os dois lados nunca estiveram tão fortes, abrindo caminhos a múltiplas faixas e rotas. Neste processo é importante um bom entendimento mútuo face aos interesses de cada parte, sem deixar de lado o papel de Macau.

A importância da presença de Xi em Portugal deve ser encarada quer do ponto de vista das dinâmicas bilaterais, quer no contexto de um ambiente externo particularmente exigente e complexo para a China. Xi estará em Lisboa após o esperado encontro com Donald Trump, à margem da Cimeira do G20 na Argentina, em plena “guerra” comercial. Por outro lado, face a um crescente ceticismo europeu face a investimento chinês em setores estratégicos, Portugal surge como um dos parceiros mais amigáveis na Europa Ocidental, com quem a China mantém uma relação multisecular especial. 

Não foi por acaso o que disse o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da China Li Zhaoxing quando respondia a uma questão sobre o interesse chinês nos países lusófonos, numa conferência que decorreu em 2009 no Instituto Politécnico de Macau.  Li recordou o dia em que foi ao Cabo da Roca e ficou siderado a contemplar o imenso e inebriante Oceano Atlântico. Na altura, partilhou, faziam todo o sentido os versos de Fernando Pessoa em “Mar Português”. É nele que se espelha o céu. Azul.    

José Carlos Matias 30.11.2018

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