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Bem público

O mais recente relatório do Índice de Felicidade Mundial salienta que as desigualdades no acesso aos serviços de saúde e educação têm um maior impacto no nível de satisfação com a vida do que o resultado do rendimento auferido pelos cidadãos. Não é por acaso nem é surpreendente. No topo da lista surgem países do Norte da Europa como a Finlândia, Noruega e Dinamarca. A qualidade e universalidade do acesso aos cuidados de saúde tornaram-se marca identitária do progresso social – que enfrenta enormes desafios – em vários países ao ponto de, por exemplo no caso do Reino Unido, o Serviço Nacional de Saúde ter sido referido na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres como “a instituição que, mais que qualquer outra, une a nação”. Em Portugal, o recente falecimento de António Arnault, homem de elevada estatura e estrutura ética e intelectual, trouxe à tona um unânime louvor em torno da sua obra como “pai” do Serviço Nacional de Saúde português. A universalidade, acessibilidade e gratuitidade do serviço são princípios fundacionais de uma abordagem aos cuidados de saúde como um bem público que se eleva acima dos restantes. A acrescer a estas dimensões, há a questão da confiança, ou da falta dela. E, não obstante os avanços dos
últimos anos, este permanece um problema estrutural em Macau, como é retratado na reportagem de fundo desta semana. Quando tomou posse como Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam prometeu “a era mais brilhante” do setor da saúde no seu mandato, colocando pressão, não apenas sobre o diretor dos Serviços de Saúde, como sobre si próprio. Apesar das melhorias registadas, quase quatro anos volvidos o brilho do setor da saúde local é ainda pouco intenso. Muito do essencial não parece ter mudado. Continua a haver falta de especialistas em várias áreas e o serviço público não surge aos olhos de muitos como verdadeira prioridade. O setor privado tem, naturalmente, um lugar de relevo, contudo as prioridades não devem ser invertidas por muito peso que tenham os interesses ligados ao maior hospital privado. É difícil compreender que o hospital das ilhas ainda não esteja aberto e a funcionar, sendo certo que isso não vai acontecer em pleno dentro do mandato deste Governo. Numa cidade com os recursos financeiros abundantes que existem, não há motivo para os cidadãos não terem um sistema de saúde em que se possam orgulhar e no qual tenham confiança.

José Carlos Matias  08.06.2018

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