“Não vamos desistir, com medo” - Plataforma Media

“Não vamos desistir, com medo”

Prudente nas respostas, mas seguro. O deputado suspenso Sulu Sou – que está acusado do crime de desobediência qualificada – recusa-se a comentar o processo que vai entrar na reta final. O democrata garante que, independentemente da sentença do tribunal na terça-feira, não vai abandonar a política. Em entrevista ao PLATAFORMA, o ativista assume que a pressão aumentou desde que foi eleito. 

– Como interpreta a decisão do Ministério Público de pedir pena de prisão para si e Scott Chiang alegando que uma pena de multa pode não ter “o devido efeito dissuasor”?

Sulu Sou – Como referi depois do julgamento, não é conveniente fazer comentários sobre o processo nesta altura.

– Juristas e advogados, incluindo o presidente da Associação de Advogados Neto Valente, defendem que é evidente que este é um caso político. Concorda?

S.S. – Como referi anteriormente, não é conveniente fazer comentários sobre o processo nesta altura.

– Honestamente, o que acha que vai acontecer e qual será a decisão do Tribunal Judicial de Base, na próxima terça-feira, dia 29 de maio?

S.S. – Prefiro não fazer previsões nesta fase. Mas continuamos confiantes sobre a nossa defesa e independência do tribunal. 

– De acordo com a lei eleitoral, pode candidatar-se às próximas eleições mesmo que seja condenado. Considera seguir com a sua carreira política caso seja este o cenário?

S.S. – A vida é política. É a minha forma de pensar. Por isso, se a minha carreira política termina ou não, não depende apenas de ter um mandato como deputado na assembleia. Sobre a decisão do tribunal, independentemente de qual for, não vai fazer com que me demita das minhas responsabilidades de vigiar o Governo. Não posso adiantar qual será o cenário nas próximas eleições. A Novo Macau ainda não discutiu isso. No entanto, acho que a Novo Macau ou o nosso grande grupo de jovens merece ter um lugar na Assembleia Legislativa.

– Imagine que a sentença é a pena de prisão. Quais vão ser os próximos passos e como imagina o futuro?

S.S. – Acho que não vale a pena imaginar cenários hipotéticos nesta fase. Mas, certamente que faremos bom uso de todos os direitos previstos na lei.

– O que tem feito desde que foi obrigado a abandonar a assembleia? Tem andado bastante ativo na internet e nas ruas.

S.S. – Além de assistir às reuniões da assembleia, tenho continuado a fazer coisas que podem ser feitas, tais como acompanhar os trabalhos e informação da assembleia. Também continuo a prestar apoio aos residentes na tentativa de os ajudar a resolver problemas que tenham, contactar os cidadãos nas ruas e ouvir opiniões, e continuo a comentar publicamente sobre os diferentes assuntos sociais. 

– Voltou a fazer vídeos-entrevistas com diferentes personalidades. O deputado Mak Soi Kun foi um delas. Acredita que, com o tempo, vai conseguir convencer as pessoas de que é uma boa opção para a política e, inclusivamente, conseguir ganhar a confiança do campo mais conservador?

S.S. – A Novo Macau tem diferentes programas em direto. Um deles são as entrevistas com diferentes personalidades, como Mak Soi Kun e Lam U Tou (em tempos ligado à Federação das Associações dos Operários de Macau e diretor da Associação Sinergia de Macau, foi ainda candidato às eleições legislativas, em setembro). Nestas entrevistas, procuro saber mais sobre as ideias e experiência das pessoas em vez de pedir comentários sobre alguns assuntos sociais, porque nem sempre temos contacto com esta parte nos meios de comunicação tradicionais. Acho que este tipo de plataforma pode fazer o espaço político mais aberto e pode ter benefícios ao nível do desenvolvimento cívico em Macau. 

– Sente que houve mudanças na forma como as pessoas olham para si e para a Novo Macau, desde que começou o caso em que está acusado do crime de desobediência qualificada e foi suspenso da assembleia?

S.S. – Depois da minha suspensão, sentimos que há mais apoio por parte da população, tanto da comunidade chinesa como da portuguesa. Algumas pessoas não estavam seguras se nos deveriam apoiar nas últimas eleições em setembro, mas agora confirmam que sim por causa do trabalho que temos feito na última metade do ano. 

– Pode explicar-me melhor os outros casos em que está envolvido juntamente com outros membros da Associação Novo Macau?

 S.S. – Nesta fase, não devo revelar mais detalhes sobre os restantes casos.

– Como referiu, tem acompanhado a política e continua a monitorizar o Governo. Como vê algumas das últimas medidas do Executivo, como as propostas sobre segurança e relativas aos trabalhadores não residentes, tais como o aumento das taxas de parto para não residentes no hospital público?

S.S. – Acho que o Governo está a enveredar por um caminho de um controlo desnecessário em nome da segurança. É inevitável que esteja preocupado por sentir que é um prelúdio a uma governação autocrática. No que diz respeito a outras medidas, continua a haver um fosso de comunicação entre o Governo e a população. Por exemplo, no que se refere à questão do acordo com vista ao reconhecimento mútuo das cartas de condução entre Macau e o interior da China, a insistência do Governo em não fazer uma consulta pública sobre o tema é completamente irracional. 

– Sente que a pressão é maior agora que mostrou que não vai desistir? Foi alvo de alguma ameaça?

 S.S. – Sinto que o ambiente político em geral está muito mais apertado. Esta mudança está relacionada com as alterações no padrão na China Continental. Mas em Macau, confrontamo-nos sobretudo com os interesses de grupos locais. Não querem mudanças porque vão afetar os seus interesses. Temos isto bem claro, por isso vamos continuar a fazer o nosso trabalho e não vamos desistir, com medo.  

Catarina Brites Soares  25.05.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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