Os inventores da pólvora, do papel, da bússola, da vinificação, da extração petrolífera, etc. - Plataforma Media

Os inventores da pólvora, do papel, da bússola, da vinificação, da extração petrolífera, etc.

A Muralha da China impressiona, e escrevo depois de subir ontem uns 500 degraus na região de Badaling, mas nunca foi infalível. Pelo menos duas vezes (uma delas antes do grande reforço da barreira pelos Ming) os invasores vindo do Norte deram dinastias à China, no caso dos mongóis quase 100 anos e no dos manchus três séculos, até ao fim do império em 1912. Mas a história mostra que esses conquistadores acabaram por se sinificar, ou achinesar.

Não admira essa sinificação, tal é a pujança demográfica e cultural da China ao longo de cinco mil anos. Mesmo os vizinhos a sentiram, basta ver as influências nas Coreias e no Japão. E convém não esquecer que a pujança também era económica, com as estimativas de Angus Maddison a atribuírem um terço do PIB mundial no início do século XIX, ou seja, antes da decadência da dinastia Qing, manchu, simbolizada pela cedência de Hong Kong aos britânicos.

Visitei Shenzhen, onde Deng Xiaoping criou em 1980 a primeira zona económica especial para permitir a dose certa de capitalismo dentro do sistema comunista. Graças ao arrojo de empresas como a Huawei (que convidou agora um grupo de jornalistas a conhecer o seu campus), a aldeia de pescadores transformou-se numa cidade com mais habitantes do que Portugal e símbolo da China do futuro, com avenidas largas, arranha-céus vistosos, espaços verdes.

Também Pequim, 70 quilómetros a sul da muralha, exibe hoje a prosperidade iniciada em Shenzhen. E o retrato de Mao Tsé-tung na Praça de Tiananmen recorda que foi o líder comunista que ao proclamar a república popular em 1949 unificou o país depois de décadas de intervenção estrangeira e guerras civis. Não admira que a Constituição inclua o pensamento de Mao e de Deng.

Hoje sob a chefia de Xi Jinping,filho de um antigo camarada de armas de Mao, o desafio chinês atinge um novo patamar. Se em paridade de poder de compra o PIB dos Estados Unidos já foi ultrapassado, será na década de 2020 que a China em termos absolutos voltará a ser o mais rico país do mundo. Trata-se de um regresso ao estado natural das coisas. Contudo, as palavras de Xi, secretário-geral do PC e presidente e também inspirador da Constituição, são mais ambiciosas. Não lhe basta ultrapassar usando a força dos números (1400 milhões de chineses). Quer que a China atinja um elevado patamar de desenvolvimento e que influencie o mundo como no passado. É uma tarefa com um nível de dificuldade maior do que subir a Muralha da China, mas não impossível. Afinal estamos a falar do povo que, e cito um livro comprado em Pequim, inventou a pólvora, o papel, a bússola, a vinificação e a extração petrolífera. Percebe-se que a investigação tecnológica não para de ser incentivada, como pude comprovar, além da Huawei, na Baidu e na iFlytek, duas outras empresas de topo, todas elas com laboratórios em Pequim.

Significa que estamos a caminho da sinificação do mundo como ocorreu a da Ásia Oriental no passado? Não obrigatoriamente e jamais tão profunda, porque o campeonato da globalização tem muitos jogadores e os Estados Unidos gozam de vantagens. Mas quando Donald Trump fala de tornar a América grande outra vez, deveria notar que a China, sim, está à beira de se tornar grande outra vez e com uma confiança em si que explica porque as críticas que chegam de fora chocam com uma barreira de indiferença mais forte do que as velhas muralhas. 

Leonídio Paulo Ferreira  23.03.2018

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