Reforma silenciosa - Plataforma Media

Reforma silenciosa

A recuperação económica da indústria do jogo contrasta com a performance menos positiva da SJM. Circunstancial, diz a empresa, relacionada com contratempos na obra do Grand Lisboa Palace, no Cotai. Mas também há problemas estruturais conhecidos, como a resistência à inovação e um modelo de governação muito particular – incluindo a relação com os casinos satélite. O modelo de jogo que cada operadora propõe é especialmente relevante numa discussão política por fazer – como tantas outras: o modelo, ou a conjugação de vários, que melhor serve a cidade; ou melhor, como realinhar a cidade aproveitando a renegociação dos contratos de jogo.

Na relação com operadoras, junkets; mercados turísticos; nas políticas de vistos, prática laboral, ordenamento fiscal, habitação… importa redefinir a relação da indústria com a cidade. Ou melhor: que cidade esta molda com que modelo de jogo. Em nome da economia, claro, mas também com opções políticas claras e uma cultura estética e social de desenvolvimento urbano. 

O peso do jogo na economia, excessivo em qualquer modelo teórico, tem contudo uma vantagem: se o Governo se preparar para regular as próximas décadas com o mínimo de sentido transformador, o sector tem força suficiente para que as decisões sejam consequentes e produzam efeito.

Os operadores ocidentais trouxeram ‘know-how’, diversificação da receita, turismo de massas, ‘boom’ económico e pleno emprego. Os operadores originais tinham o mapa da mina: o jogador chinês, banca paralela e cobrança coerciva. Passados estes anos, a liberalização do jogo mudou a cidade – deixando muitas feridas. O foco de interesse na renegociação das (sub)concessões não é o de saber se sai ou entra algum operador, se Adelson cede a Pequim ou se a Galaxy quer poder político. Far-se-á certamente esse debate. Mas esse não é estrutural.

A SJM, local e iniciática, ou a Galaxy, supostamente nacionalista, representam propostas diferentes das que trazem a Sands ou da MGM. Parece tudo igual – e esse é um dos problemas – mas não é. Ou não devia ser. Nem o dinheiro, nem as relações, dispensam a classe política; ou, aliás, a sociedade civil em geral – da discussão de um modelo de cidade que, não tem alternativa ao jogo, por mais património, cultura e empreendedorismo que tente anunciar. O compromisso entre os operadores de jogo, o Governo e Pequim vai definir se alguma coisa muda ou se tudo fica na mesma nas próximas décadas. Curiosamente, está tudo ao mesmo tempo em cima da mesa. Num silêncio ensurdecedor.  

Paulo Rego

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