Economia de Bissau continua demasiado dependente do caju - Plataforma Media

Economia de Bissau continua demasiado dependente do caju

O crescimento da economia da Guiné-Bissau tem estado acima do registado no conjunto da África subsaariana, mas deve ser potenciado e diversificado, porque depende quase exclusivamente da castanha de caju.

Na última avaliação ao país no âmbito do Programa de Crédito Alargado, o Fundo Monetário Internacional indicou que as previsões de crescimento económico para o país são de 5 por cento para 2017 e 2018.

“Isto explica-se com a evolução muito positiva dos preços da castanha de caju, que aumentou para níveis recorde”, referiu o FMI.

Mas, mais de 90 por cento das exportações do país são castanha de caju e uma variação do preço no mercado internacional pode prejudicar a economia guineense.

“Será igualmente importante alcançar progressos na diversificação da economia e reduzir a sua dependência das exportações da castanha de caju” e melhorar o ambiente de negócios para cativar investimento externo com uma “regulamentação transparente e estável, sustentando uma concorrência estável”, aconselhou o FMI.

Apesar de ter uma das melhores castanhas de caju do mundo, a Guiné-Bissau não está a fazer o melhor aproveitamento do produto e perde milhões anualmente, segundo empresários e a Associação Nacional de Agricultores da Guiné-Bissau.

Se por um lado os empresários pedem uma industrialização do setor, nomeadamente a transformação do produto, por outro a Associação Nacional de Agricultores tem alertado para a necessidade de profissionalizar a produção, porque os atuais agricultores são “amadores” e não adotam conhecimentos científicos e tecnológicos na produção.

“Vamos ter de transformar, porque já estamos em quinto no lugar como país exportador de castanha de caju e se queremos continuar temos de começar a aplicar boas práticas no processo”, disse Jordy Oliver, um empresário que tem uma fábrica de transformação de caju na Guiné-Bissau, durante uma conferência sobre o crescimento sustentável.

Explicando que 20 mil toneladas de caju transformado podem significar 30 milhões de dólares de lucro social, o empresário salientou que são precisas políticas, nomeadamente para proteger o empresário que compra para transformação no acesso à castanha de caju antes da “voragem dos exportadores”.

Durante a campanha de este ano, o preço do quilograma da castanha de caju começou nos 500 francos CFA (0,90 dólares) e houve agricultores que conseguiram vender a 1050 e 1100 francos CFA (cerca de 1,98 dólares) – o valor mais elevado dos últimos anos, segundo a Associação Nacional de Agricultores da Guiné-Bissau.

Em 2016, a Guiné-Bissau exportou 180 mil toneladas de castanha de caju.

Mas, se a transformação e melhoria da produção da castanha de caju podia potenciar mais a economia, a diversificação do cultivo de produtos agrícolas também.

Metade da economia é agricultura de subsistência

A Guiné-Bissau é um país agrícola. A agricultura representa quase metade do Produto Interno Bruto, e a terra arável é superior a 900 mil hectares.

O arroz é a base alimentar dos guineenses, mas um dos principais produtos importados, porque a produção rudimentar no país não garante uma colheita suficiente para fazer face à necessidade de consumo nacional.

Segundo o ministro da Agricultura guineense, Nicolau dos Santos, cada guineense consome cerca de 130 quilogramas de arroz por ano, o que significa um consumo total de 200 mil toneladas.

A Guiné-Bissau produz apenas cerca de 100 mil toneladas de arroz.

O Governo guineense distribui este ano entre os agricultores sementes de arroz, milho, feijão e amendoim para diversificar o setor, mas a aposta tem de passar pela mecanização da agricultura. Só assim a Guiné-Bissau pode produzir em quantidade suficiente para diminuir as importações e criar um crescimento económico sustentado.

“Não podemos continuar com a agricultura tradicional. Temos de mecanizar a nossa agricultura e desenvolver o potencial agrícola do país”, afirmou o ministro.

Paralelamente ao trabalho do Governo, o Presidente do país, José Mário Vaz, lançou um programa, denominado “Mão na Lama”, para incentivar a população a cultivar arroz e a diminuir a dependência do caju, aumentando a segurança alimentar do país e ao diminuir a necessidade de importação do produto.

Para potenciar e diversificar a sua economia, a Guiné-Bissau precisa, contudo, de fazer investimento público nas infraestruturas – nomeadamente no fornecimento de eletricidade e água, e na construção de redes viárias -, na saúde e na educação, e na formação da sua população jovem e desempregada.

Potenciar e diversificar, mas com estabilidade

Para o FMI, o crescimento da Guiné-Bissau deve ser potenciado através da estabilidade macroeconómica, por uma política orçamental prudente, manutenção de um sistema bancário sólido e pela continuação das reformas estruturais. Mas, também, pela promoção de um ambiente de negócios com “regulamentação estável e transparente” e que proteja as pessoas, para que seja mais inclusivo.

A estabilidade política também é essencial para criar um ambiente de confiança e a prolongada instabilidade no país não tem permitido uma “transformação económica”, como disse o economista guineense e antigo secretário executivo da Comissão Económica da ONU para África, Carlos Lopes.

A Guiné-Bissau vive um impasse político há cerca de dois anos e desde as eleições legislativas, realizadas em 2014, já teve cinco primeiros-ministros.

O atual Governo não tem o seu programa e orçamento de Estado aprovados, porque o parlamento permanece encerrado, nem o apoio do partido que ganhou as eleições com maioria.

O impasse político tem levado vários países e instituições internacionais a apelarem a um diálogo entre os líderes guineenses para que cheguem definitivamente a um consenso sobre a aplicação do Acordo de Conacri.

O Acordo de Conacri, patrocinado pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), prevê a formação de um governo consensual integrado por todos os partidos representados no parlamento e a nomeação de um primeiro-ministro de consenso e da confiança do chefe de Estado, entre outros pontos. 

Isabel Marisa Serafim-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

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