Tecnologia de comando

por Arsenio Reis

A procura da liderança tecnológica é um dos vectores da afirmação geoestratégica chinesa. Luís Cunha, investigador do Instituto do Oriente, em Portugal, lançou esta semana “China’s Techno-Nationalism in the Global Era”, pelo Instituto Internacional de Macau. O autor vê o fenómeno de importação de tecnologia por via do investimento com cautelas e entende que a Europa deve defender melhor os seus interesses estratégicos.

– Vê o investimento na inovação pela China ao longo dos últimos anos sobretudo de um ponto de vista de afirmação geopolítica. Quais são as principais características deste tecno-nacionalismo chinês que descreve?

Luís Cunha – Tem que ver basicamente com o fardo da história da China – o facto de a China ter sido semicolonizada durante muitos anos, quer por potências ocidentais, quer pelo Japão. Esse peso da história está sempre presente, ainda hoje, neste projeto de afirmação geopolítica da China. Há aqui, digamos, uma espécie de tentativa de reposição de alguma justiça histórica, por um lado. Por outro lado, ao nível da tecnologia, temos aqui um aspeto muito interessante que é o facto de a China ter sido ela própria criadora de uma série de invenções e tecnologias que depois se espalharam um pouco por todo o mundo, como a pólvora, a impressão, a bússola, os canhões, o sismógrafo. Acabariam por ser outros, nomeadamente, potências ocidentais e o Japão, a desenvolver essas tecnologias. Foram as potências ocidentais que pegaram nessas tecnologias, as desenvolveram e usaram contra a própria China. Isso, obviamente, deixou marcas históricas muito profundas. A ciência e a tecnologia foram sempre a grande lacuna da cultura chinesa. A tentativa de colmatar essas lacunas foi um processo de avanços e recuos – mais recuos do que avanços. 

– Uma das características do desenvolvimento tecnológico chinês é a sua dependência da importação. Este é um dos principais desafios ainda hoje no desenvolvimento da ciência e tecnologia chinesas?

L.C. – É. Estamos a assistir a um fenómeno que é a aceleração da história. E no centro dessa aceleração está a China, com tudo o que isso comporta. Ao nível da ciência e tecnologia, o percurso desde 1978 tem sido o da afirmação, e o de ir buscar à fonte – e neste caso a fonte sãos os Estados Unidos e, muito, a Europa. A Europa tem sido um dos pontos principais para absorção de tecnologia pela China, que depois é transformada. Assistimos a um fenómeno muito interessante, que é aquilo a que os economistas chamam a vantagem do subdesenvolvimento. O facto desta China chegar ao final da década de 1970 muito subdesenvolvida permite nos anos subsequentes, graças a recursos financeiros muito substanciais e a uma estratégia delineada, queimar etapas e fazer programas como foi o caso do programa para a alta velocidade – em poucos anos, a China tornou-se, se não a potência mundial, pelo menos uma das potências mundiais, com tecnologia que inicialmente foi absorvida da Europa e do Japão e que neste momento já está a reexportar. A China absorve tecnologia, dá-lhe características chinesas, desenvolve e revende. É extremamente eficaz na forma como transforma tecnologia. Vimos isso nos comboios de alta velocidade, vimos isso de uma forma muito próxima nas telecomunicações, e vimos isso noutras áreas como os painéis solares e indústria automóvel. Agora estamos a assistir ao fenómeno da energia nuclear que está a chegar à Europa. A China está a dar o ‘grande salto em frente’ – para usar uma expressão maoísta – de tecnologia, inovação e ciência. Estamos a falar de Estado que tem os meios e a estratégia, com objectivos delineados aliás no 13º plano quinquenal, e que pretende transformar a China numa grande potência tecnológica até 2050. Penso que será muito antes disso.

– Este movimento de importação de tecnologia, reprocessamento e revenda ao ponto de origem tem provocado diferentes conflitos a nível comercial, como é o caso da Alemanha. Em Inglaterra também se sentiu uma reação negativa ao investimento no nuclear. A questão da transferência de tecnologia está a ser vista como mais problemática por parte da Europa e Estados Unidos? Que implicações é que isto pode ter do ponto de vista das relações de investimento?

L.C. – Estamos a falar de vários fenómenos, todos associados entre si – político, económico, tecnológico. De há uns anos a esta parte, a Europa tem sido muito mais facilitadora da transferência de tecnologia para a China, por um lado, e na absorção de investimento chinês, por outro – investimento esse que tem muito a ver com a tal absorção de tecnologia dos últimos anos. Isto, ao contrário dos Estados Unidos, e outros países, como a Austrália, que têm colocado algumas barreiras as esta transferência de tecnologia com receio das consequências ao nível da defesa e segurança. Os Estados Unidos, como sabemos, não têm facilitado o investimento da China nas telecomunicações e em muitas outras áreas. A Europa, não. Tem sido muito facilitadora desse investimento e nos últimos anos, é óbvio, por via da crise que se viveu e se vive na Europa. Há o antes e o depois da crise. Antes estávamos a viver um período em que havia um certo denominador comum na Europa em que esta projeção do poder chinês era para ser vista com algum cuidado, e de repente as portas escancararam-se – e Portugal é disso um bom exemplo. O que falta aqui na componente geopolítica é o escrutínio do investimento – seja ele qual for, mas neste caso estamos a falar do chinês. Porquê? Porque o investimento chinês está a chegar aos chamados sectores estratégicos de qualquer Estado, como por exemplo a rede eléctrica, a banca, e muitos outros. Este fenómeno, que passou um pouco lado das preocupações dos políticos durante vários anos, neste momento está a ser revisto. Porque a China está imparável neste processo de absorção de tecnologia – ready-made, muitas das vezes: a tecnologia está disponível e a China compra. Mas, ultimamente, houve vários casos – um deles é o da Kuka, uma grande empresa de robótica alemã, com tecnologia de ponta, que faz produtos para imensas indústrias, da automóvel à aeronáutica. Talvez fosse esse o sinal de alarme que tocou em Berlim. Pela primeira vez assistimos à Alemanha, que tem intensíssimas relações comerciais com a China, a pôr em causa este investimento porque estamos a falar de um sector estratégico. O que tem feito falta é um escrutínio político e geopolítico do investimento chinês, que é imparável e insaciável, nomeadamente, na Europa. 

– E que exige cada vez mais condições de reciprocidade no acesso a mercados.

L.C. – Uma das grandes questões levantada sistematicamente pelos representantes da União Europeia – e dos Estados Unidos – na China é essa falta de reciprocidade. Ou seja, ninguém imagina  que Portugal ou outro país europeu pudesse investir em sectores estratégicos da China, porque de facto estão vedados. É essa precisamente a grande batalha atual da Alemanha, e por arrasto da União Europeia: a criação de condições para a reciprocidade em termos de investimento e de troca de tecnologia.

– No caso de Portugal, fala-se sobretudo dos investimentos na energia, com a State Grid e a China Three Gorges na REN e na EDP. Curiosamente, estas empresas criaram centros de investigação e desenvolvimento em Portugal. Será um caso único na Europa no campo da energia. Empresas como a EDP e a REN destacavam-se muito na integração das renováveis, tecnologias adquiridas pela China. Quais são os resultados desta cooperação?

L.C. – Não tenho dados concretos para aprofundar muito esta questão. Posso dizer que este investimento da China em Portugal – e não estou só a falar da energia – tem tido efeitos positivos. Mais que não seja, esse investimento chegou numa altura em que Portugal não conseguia ter financiamento por parte de outras entidades. Chegou na altura oportuna e tem tido desenvolvimentos positivos. Dito isto, e voltando um pouco atrás, a China obviamente pretende acima de tudo tecnologia, seja ela nas renováveis, seja ela nuclear. É esse o trade-off: financiamento a troco de tecnologia. É esse o modelo que a China segue, seja aqui, seja na própria China. Uma das queixas sistemáticas dos investidores, das associações que representam os empresários na China, é a de que quem quiser investir na China tem de estar preparado para ceder tecnologia, propriedade intelectual e direitos, caso contrário terá imensas dificuldades em fazer negócio. Há todos esses perigos associados ao investimento com a China. Mas, apesar disso, a União Europeia tem mantido relações comerciais intensas com a China. 

– Fala de casos de cooperação entre a União Europeia e a China que tiveram bastantes problemas, como é o caso do projeto Galileu. O que é que determinou o fracasso da cooperação?

L.C. – No caso concreto do projeto Galileu, mais uma vez estamos a falar do aproveitamento por parte da China de uma tecnologia de ponta que rapidamente processou, converteu e transformou em tecnologia doméstica, se assim se pode dizer. Hoje em dia o projeto Galileu continua a viver uma série de problemas, e a rede de satélites chinesa está desenvolvida com os satélites a serem colocados no espaço conforme o programa que foi delineado. Houve um aproveitamento muito utilitário da tecnologia europeia em proveito próprio. 

– Como é que a União Europeia, que pretende continuar a cooperar na área tecnológica com a China, pode reagir e obter contrapartidas?

L.C. – É cada vez uma relação mais assimétrica. A emergência das novas potências tecnológicas, com a China à cabeça, vai colocar cada vez mais em causa a tecnologia americana, europeia ou outra. A cooperação aumenta mas a competição também. Temos aqui um equilíbrio de natureza instável, que é sabermos que estamos a cooperar e ao mesmo tempo estamos a competir, dependendo das áreas de que falamos. É um equilíbrio instável que é gerido com alguns cuidados do ponto de vista político – estamos a falar, ou não, da concessão do estatuto de economia de mercado à China e de muitas outras situações. 

– Torna-se muito difícil, se não impossível, cooperar sem esconder algo do parceiro?

L.C. – Estamos a falar de um fenómeno que é protecionismo. O tecno-nacionalismo comporta-se sempre, quase que inevitavelmente, com uma componente de protecionismo. Esse fenómenos não é novo. Por exemplo, sabemos que na aeronáutica Boeing e Airbus são subsidiadas, mas não sabemos em que medida. Estamos a falar de estratégias determinadas por Estados ou grupos de Estados que tentam projetar as sua tecnologia a nível regional ou mundial. Isso pode desembocar num protecionismo. Também falo nisso – é o grande perigo. Agora, com a nova relação entre China e Estados Unidos, veremos como as coisas se desenvolvem nesse aspecto. Podemos sempre ir parar num protecionismo que não é bom para ninguém. Há programas de desenvolvimento, quer do lado da Europa, quer do lado da China, que envolvem enormes somas de dinheiro. Os especialistas dizem vivemos 60 anos de silêncio na ciência. Agora não, estamos a viver outra vez um boom, sobretudo ligado ao 3D e à robótica, aos sistemas de inteligência artificial. A China quer ser líder em todas essas áreas. Ainda há pouco tempo tivemos a informação de que a China teve mais de um milhão de patentes pedidas no ano passado. Bateu um recorde. É um indicador precioso que nos dá a medida deste grande salto em frente que a China está efetivamente a dar. Tem todos os recursos para isso.

– E uma direção política forte num país que permite estabelecer estas metas e que elas se cumpram.

L.C. – Mas não basta uma direção política firme e o tal Estado estratégico. São precisos cientistas, são precisos projetos, é precisa inovação. Aqui o grande salto que a China está a dar é passar da imitação à inovação. Está a dar esse salto absorvendo já não apenas tecnologia, mas os próprios cientistas – que é uma coisa que o Deng Xiaoping tinha proposto.  Neste caso, os cientistas europeus são atraídos para a China, onde têm todas as condições para levarem a cabo o seu trabalho, bons salários.

Maria Caetano

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