Ponte macaense

por Arsenio Reis

José Luís de Sales Marques viu renovado o seu mandato enquanto presidente do Conselho das Comunidades Macaenses. Garantindo que vai “continuar [a trabalhar] numa linha semelhante”, diz, em entrevista ao PLATAFORMA, que espera agora conseguir juntar as diferentes Casas de Macau e criar projetos comuns, em áreas como a cooperação entre a China e os países de expressão lusófona. Além disso, no fim de mais um Encontro das Comunidades Macaenses, o dirigente refere querer ver mais jovens envolvidos nestas atividades, mas também afirma que há que adaptar a linguagem a essas novas gerações.

Que balanço faz do Encontro das Comunidades Macaenses?

Sales Marques -O número de participantes era o que inicialmente se esperava, mas, em certos eventos, até acabou por ser mais ¬— a adesão, da parte das pessoas de Macau, tem sido muito grande. As várias sessões do programa têm sido sempre muito bem preenchidas, muito interessantes e com muita adesão. (…) Há uma adesão muito grande dos participantes, o que é sempre bom. Significa que há muito interesse e as pessoas estão genuinamente empenhadas em procurar tirar o melhor partido possível do programa que lhe proporcionamos.

O programa destes Encontros tem sido muito semelhante ao longo das várias edições. Há espaço para mudanças?

SM-O programa não pode ser muito diferente do que é na sua estrutura — há que combinar aquilo que é tradicional com aquilo que poderá ser alguma novidade. Estas duas sessões culturais [na Universidade de Macau e no Centro de Ciência] já existiram no passado, mas este ano têm a particularidade de ter tido o maior número de participantes. (…) A novidade absoluta do programa é o passeio a Cantão. Em cada Encontro procuraremos fazer mais qualquer coisa, mas aquela combinação [tradicional/novidade] tem de prevalecer. 

Este Encontro realiza-se de três em três anos. Há alguma hipótese de reduzir a periodicidade ou é a periodicidade possível?

SM-É a possível. Toda a preparação leva bastante tempo. Somos uma organização que, apesar de te um ou dois funcionários, a maior parte das pessoas está em regime de voluntariado, não podem também pôr em causa os seus empregos e obrigações profissionais, e os próprios participantes vêm de longe. Há muitos custos envolvidos. Os subsídios têm sido muito importantes e suficientes, mas, se a frequência for maior, não sei se conseguiremos manter esse nível de apoio.

Em 2013, foi eleito Presidente do Conselho das Comunidades Macaenses. Na altura, disse que queria apostar no reforço da identidade macaense. Conseguiu cumprir esse objetivo?

SM-Há muito trabalho. Nos últimos anos, temos procurado criar ou sensibilizar as Casas [de Macau] para terem mais atividades, para chamarem mais os jovens, para também procurar renovar as direções das mesmas. Temos procurado fazer alguma coisa, mas o nosso trabalho é bastante complementar.

O Conselho das Comunidades é um guarda-chuva que procura unir as diversas Casas e associações de Macau, mas a vida associativa propriamente dita é nessas Casas, nessas associações. Podemos fazer alguma coisa, alguns apelos, procurar servir de intermediários ou de interlocutores entre as Casas e algumas instituições de Macau, como é o caso da Fundação Macau, e temos tentado fazer isso. Mas o trabalho tem de ser mesmo desenvolvido ao nível das Casas e é isso que temos procurado fazer.

Tem visto progressos no que diz respeito ao trabalho desenvolvido pelas diferentes Casas?

SM-Temos visto alguns progressos. Há Casas que têm maior dinâmica; outras que não são assim tão dinâmicas. Há casos de renovação interessantes. No Club Lusitano de Hong Kong, o número de sócios quase duplicou [recentemente] porque também há estratégias diferentes de abertura e de atração de novos sócios. A maior parte das Casas começa a encarar essa questão de uma maneira mais flexível. Algumas Casas têm uma definição mais rígida de quem podem ser os sócios. E a comunidade macaense vai mudando. Há muitos mais macaenses, com origens diferentes. Agora acabámos de receber a apresentação de um inquérito feito aos macaenses de todo o mundo — acho que já foi apresentado uma vez na ADM [Associação dos Macaenses], em que se mostra que alguns elementos que eram considerados muito importantes, como a religião, hoje já não são assim tão importantes. Mas continua a ser importante a cozinha, as tradições. Há aqui vários aspetos e o que encorajamos é que haja uma maior flexibilidade na abertura das Casas, sem por em causa o que é essencial.

A questão da adesão a esta ideia do que é o macaense — macaense, se calhar, é todo aquele que sente que é macaense —, há aqui estas questões todas. Do ponto de vista de sustentabilidade das Casas e das próprias comunidades, é importante sermos capazes de olhar e sentir o palpitar do presente, e olhar bem para os caminhos do futuro, porque só assim é que podemos ir renovando a nossa comunidade.

Referiu a necessidade de atrair os jovens. Os jovens estão mais envolvidos nesta questão da identidade macaense?

SM-Há várias fragilidades. Hoje em dia, até no que toca às gerações mais recentes, será que há alguma consciência de ser macaense? Isso depende muito do trabalho que somos capazes de fazer — também de promover a nossa cultura junto das gerações mais jovens. Não podemos seguir a mesma linguagem, a mesma metodologia, os mesmos caminhos de há 50 anos. As redes sociais são fundamentais. O caminho está aberto, mas é preciso saber percorrê-lo.

Foi novamente eleito presidente do Conselho das Comunidades. O que espera fazer neste segundo mandato?

SM-Espero continuar numa linha semelhante, mas espero conseguir juntar as Casas para alguns projetos comuns que possamos vir a ter, através até das experiências das próprias Casas. Se calhar, podemos levar a cabo alguns projetos capazes de nos unir mais e que sejam tão úteis para nós, enquanto comunidade, como para Macau. Há componentes que estão por explorar, nomeadamente na área dos negócios, que é uma das áreas em que se calhar podemos vir a fazer mais qualquer coisa, sendo útil nesse diálogo entre a China e os países de língua portuguesa, ou outros projetos que estão na senda daquilo que Macau pretende fazer.

As diferentes comunidades macaenses espalhadas pelo mundo estão hoje mais coesas?

SM-Não sei se estão mais coesas, porque também há que olhar para o aspeto humano. Se calhar, há 50 anos, as pessoas conheciam-se mais. Mas todo esse é um processo que tem a ver com a globalização, com a questão das identidades. É um processo muito complexo para o qual não tenho nenhuma resposta simples.

Luciana Leitão

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