No olho do tufão - Plataforma Media

No olho do tufão

Nunca, em tão pouco tempo, tanta gente importante desapareceu do mapa político de Macau. Primeiro o ex-procurador, mais alto magistrado do burgo, com ambições políticas nunca disfarçadas, que defendia uma governação musculada e um estado policial para combater a corrupção. A notícia da sua detenção – acusado de peculato e abuso de poder – sendo irónica, sobretudo mina incontornavelmente a confiança na Justiça. Depois é trocado o secretário geral do Fórum Macau, mais alta figura local na ligação aos países de língua portuguesa; pelo meio sai o presidente do Banco da China, com fort]issima influência nos bastidores da economia local; por último, mas ainda mais relevante, cai sem aviso nem explicação o chefe do Gabinete de Ligação, representante do Conselho de Estado e mais alto dignitário do governo chinês em Macau. A cidade está perplexa e paralisada, à espera de saber que ventos sopram do norte.
O alto grau de autonomia existe, não é treta da lei nem discurso de fachada. Mas a magistratura de influência de Pequim é real e não é sequer contestada. Isto não é Hong Kong; nunca foi, nem nunca será. Quando o telefone vermelho toca, Macau atende em sentido; e quando a voz de quem manda é grossa, a espinha local curva-se até onde manda a reverência e o medo. Certo é que hoje, como quando as ordens vinham de Lisboa, diz-se a tudo que sim e depois faz-se o que dá jeito em defesa dos poderes fáticos da indústria do jogo, dos especuladores imobiliários e desta forma muito peculiar de gerir o poder e o dinheiro em torno das tríades. Até um dia…
A nova liderança em Pequim tem a fama e o proveito de não perdoar. Estranho seria que com a limpeza em curso na China, onde as relações de poder e a oligarquia financeira mudam dramaticamente, no contexto da campanha contra a corrupção, a cidade dos casinos escapasse incólume e a rir. Há quem diga que passará por cá de mansinho; diz essa tese confiante que a China não arrisca limpar a terra a sério, com medo que a economia afunde. Mas isso não é nada líquido. Aliás, olhando para quem já caiu, mais parece estarmos no olho do tufão: aquela paz podre em que nada acontece, antes do rabo do tufão varrer furiosamente tudo por onde passa.

Paulo Rego

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