Foi sempre um mercado político - Plataforma Media

Foi sempre um mercado político

Ben Lee, conhecido analista de jogo, diz que Macau está a perder interesse para os turistas chineses, não tem visão para conquistar mercados alternativos e é falso que esteja a migrar para o mercado de massas. O problema num “mercado político”, é que a China nada muda enquanto a China não disser claramente o que quer: “Perante a grande dúvida política introduzida na equação, é difícil nesta altura perceber para onde Macau está a ir”.

– As receitas brutas do jogo atingiram em junho 15,9 mil milhões de patacas (1,9 mil milhões de dólares), o pior resultado desde setembro de 2010. Esta queda de cerca de 50% em relação a 2013 está no ponto mais baixo? Ou ainda pode ser pior?

Ben Lee – Estamos de facto em aparente queda livre do ponto de vista das receitas brutas no jogo. E eu confesso que me enganei, pois acreditei que a indústria recuperasse, tendo baseado essa análise no apoio prometido pelo Gabinete de Ligação da China em Macau.

– Quando garantiram publicamente ajudar Macau a manter rendimentos elevados?

B.L. – O diretor do Gabinete de Ligação [Li Gang] fez várias declarações positivas, no início de 2015, dizendo não via necessidade de sacrificar a indústria do jogo para perseguir a diversificação económica; assumindo ainda que, naquilo que mais os preocupada, a lavagem de dinheiro tinha sido afastada de Macau. Essas declarações, combinadas com várias outras, até 2015, levaram-me a acreditar que a China apoiaria a recuperação económica.

– Bastaria a China tê-lo feito?

B.L. – Macau foi sempre um mercado político; não é um mercado livre onde manda a lei da oferta e da procura. O que é central é o que a China decide que Macau deve ter. Infelizmente, Li Gang não terá garantido o apoio que eu assumi que ele teria por parte do Governo chinês. O primeiro sinal negativo foi quando falhou uma reunião muito importante em Pequim, em Março ultimo. A explicação oficial foi a de que não estava bem de saúde, mas depois soube-se que tinha sido removido – ou transferido – sem anúncio prévio. Só se pode concluir que alguém, algures, não estava contente com a sua performance. Ou não teria sido transferido tão depressa, deixando sem explicação o próprio Governo de Macau.

– O que é que pode significar essa substituição do mais alto representante da China?

B.L. – Perante a grande dúvida política introduzida na equação, é difícil nesta altura perceber para onde Macau está a ir. Está toda a gente à espera de um estímulo qualquer, que só pode vir de Pequim. Historicamente, sabemos que o novo chefe do Gabinete de Ligação levará entre três a seis meses para assentar ideias, antes de começar a tomar decisões. Estamos por isso no limbo. Não há direção ou política e o Governo de Macau não fará nada até que ele chegue. Depois vai assentar ideias e falar com Pequim, antes de dar instruções; logo, não vejo qualquer alteração nos próximos seis meses. Sendo essa a equação política, temos ainda o lado estatístico: a evolução dos resultados homólogos só pode melhorar, porque agora a comparação é feita com o ano passado.

– O ano passado já foi mau o suficiente…

B.L. – Logo, a comparação vai ser melhor. Apesar disso, com o clima político de incerteza, o mercado VIP vai continuar a cair.

– Havia a expectativa de que o mercado de massas crescesse de forma a compensar a queda do mercado VIP…

B.L. – O mercado de massas também está a cair, como se prova nos pelos resultados nas slots. Essa queda tem sido sustida pela migração dos jogadores VIP para o mercado de massas, a uma taxa de 10-15% por ano. O mercado VIP continua a representar cerca de 50% das receitas brutas, digam o que disserem.

– Como é que os operadores estão todos a dobrar as estruturas hoteleiras e as salas de jogo neste ambiente?

B.L – A decisão de construírem novas estruturas no COTAI foi tomada há cerca de cinco anos. Já vimos outros exemplos deste desfasamento entre as decisões de investimento e alteração dos ciclos económicos. Assumiram esse risco e agora enfrentam condições de mercado diferentes das que esperavam.

– O que é que vai acontecer a esses novos empreendimentos

B.L – Basicamente, vão canibalizar as receitas existentes; vão tirar quotas de mercado às propriedades já existentes.

– Os casinos estão a cortar custos e a dispensar pessoas. Não é um contrassenso havendo novas propriedades por abrir?

B.L – É bom lembrar que, apesar da quebra nas receitas, as margens de lucro são ainda muito altas e há espaço para operarem longe no vermelho. Cortam custos agora e voltarão a assumi-los quando fizer sentido.

– Podem atrasar a abertura à espera de melhores dias?

B.L – Isso não faz sentido, porque já estão a pagar as obras e os custos financeiros. Mesmo que isso tire quota de mercado aos casinos existentes – dos mesmos operadores – vão ter de cobrir os custos dos novos projetos. O comportamento individual em contexto de competição, mesmo num mercado em queda ou maturado. Veja o caso de Las Vegas, onde o mercado estabilizou em baixa e mesmo assim, há pelo menos três novos projetos em construção: um da Genting, outro da Crown e um terceiro de uma operadora norte-americana. Porque acreditam que podem tirar quotas de mercado aos casinos existentes.

– Perante este “novo normal”, os operadores vão investir fora de Macau?

B.L – Estão todos a olhar para a região. A Sands pensa na Coreia, no Japão e no Vietname, a Galaxy estuda opções no Vietname e na Coreia, a City of Dreams está nas Filipinas e olha para Barcelona; Lawrence Ho já está em Vladivostoque e a falar com gente no Vietname…

– Macau corre o risco de implodir?

B.L – A casa não vem abaixo. Vamos ter um nível mínimo de receitas garantido, porque a China decide o número de turistas que todos os anos deixa vir a Macau. Na realidade, o ónus está agora posto nos operadores, que deviam atrair jogadores vindos de outros mercados para além da China. Mas até agora falharam nisso, porque têm vistas curtas. Toda a gente está a tentar fatias de negócio que eram de Macau, mas aqui ninguém tenta atrair jogadores vindos desses mercados. Vamos a qualquer hotel de cinco estrelas em Macau e quer os concierges quer os outros empregados só falam chinês. Estão ainda todos focados no mercado chinês e isso é um  erro.

– Os turistas chineses vão diminuir em Macau, apesar da largueza da China na emissão de vistos individuais?

B.L – Os casinos com marketing mais agressivo para os mercados externos são os coreanos. Nas paragens de autocarro, nos Media digitais, nas revistas das transportadoras aéreas… consegue apontar um único operador em Macau que o faça? 

– O alvo dos coreanos é o mercado VIP?

B.L – Cerca de 90% dos estrangeiros que jogam na Coreia são oriundos do mercado de massas, que é o que é preciso fazer aqui. Mas as promoções são feitas também para o mercado VIP.

– Porque é que em Macau não se fazem essas campanhas?

B.L – Os casinos aqui são muito mimados. Recorde-se do mantra: basta abrir as portas que eles virão. Alguma vez se ouviu falar em estratégias para a conquista de mercados externos? Só muito recentemente os seis operadores finalmente se juntaram para discutir interesses comuns. Mas adivinhe em que mercado continuam focados? Na China! Não se consegue discutir com eles nada de novo; continuam à espera que o fruto caia da árvore.

Pequim já sabe o que quer

– Mesmo sem novos sinais de Pequim, o combate à corrupção e à lavagem de dinheiro há muito indica que Macau teria de migrar do mercado VIP para o turismo de massas. Ao menos isso está a acontecer?

B.L – Não. Os novos empreendimentos continuam focados no mercado VIP; não são para o mercado de massas.

– Como é que se força essa mudança? Com imposição legal?

B.L – É preciso uma visão imposta pelo Governo. Os operadores estão a fazer o que fazem os investidores: dão-lhe um espaço limitado e eles, dentro desse perímetro, tentam maximizar os lucros. Não vão investir em parques temáticos, montanhas russas e coisas do género, quando isso não lhes dá dinheiro. A única forma de mudarem de paradigma é se isso lhes for imposto agora como condição para a renovação das licenças. É preciso dizer-lhes que têm de construir A, B, C e D, sem margem para depois dizerem que um pequeno teatro ou alguns bares são a prova de que investem em atividades non gaming. 

– O modelo de Singapura?

B.L – Em Singapura, o Governo foi muito específico ao impor a visão que tinha. Tinha duas parcelas de terreno e definiu muito claramente a sua utilização: num lado, apostaram nas indústrias MICE e no retalho; na outra, em parques temáticos e no turismo temáticos. No Marina Bay Sands, por exemplo, propuseram primeiro o Skypark, que é hoje um ícone mundial. Mas depois de ganhar o concurso, Adelson quis retirar esse projeto para maximizar o espaço para mesas de jogo. A comissão de jogo rejeitou a mudança e lembrou que a licença lhe tinha sido atribuída com a condição de construir o Skypark.

– A renovação das licenças é a última oportunidade?

B.L – Já é tarde, porque os novos empreendimentos no Cotai já estão construídos. A única hipótese agora é derrubar as propriedades antigas e construir algo de novo. Sabemos que o Governo não tem massa crítica e talento para impor uma visão de qualidade, pelo que proponho uma coisa muito simples: sentem os seis operadores à mesa e digam-lhes o que querem: parques temáticos, isto, aquilo, e o que for preciso para diversificar o negócio e atrair o mercado de massas. Depois deixem-nos propor, daquela lista de exigências, o que cada um propõe construir. Como o fazem, não interessa; agora, a renovação das licenças tem de depender de o fazerem.

– Macau nunca teve essa mão de ferro…

B.L – É a única hipótese. É preciso dizer já aos operadores que querem ver renovadas as suas licenças entre 2019 e 2020 qual é a visão do Governo na mudança para o mercado de massas. Daqui a três anos, em cima do acontecimento, será muito tarde. Ninguém vai querer vir a Macau se perdermos o barco. Macau já não é sexy. Em, 2015 deixamos de estar entre os dez destinos mais procurados nos motores de busca chineses.

– Nem mesmo para jogarem?

B.L. – Os turistas chineses gastam cada vez menos tempo e menos dinheiro nos casinos. Não há nada de novo. Se fosse um simples turista viria a Macau só para ver mais um casino igual a todos os outros? O mundo é muito maior e há novas tendências no mercado turístico chinês. Mesmo quando vão a França, já trocam Paris por cidades mais pequenas, com outro charme; estão mais sofisticados e seletivos. Os sinais estão aí todos e em Macau ainda estão focados em estratégias com dez anos de atraso. Quando a China abriu Macau era uma novidade e era mais fácil cá virem; agora não é assim.

– Há quem diga que mais vale agora esperar pela mudança de Governo…

B.L. – Não podemos esperar mais três anos. Sei que é essa a tendência, mas será que o futuro chefe do Executivo vai mesmo ter alguma coisa a dizer? Primeiro, quando assumir o cargo vai levar mais um ano antes de decidir o que fazer; depois, lembre-se que quando os junkets da Dore fugiram com o dinheiro dos investidores particulares, as pessoas foram queixar-se para a porta do Gabinete de Ligação da China – e não para o Palácio do Governo. As pessoas na rua sabem quem manda. Se calhar é por isso que está a chegar o novo líder chinês: vem com a folha limpa e pode tomar decisões.

– Como é que estão os junkets a reagir a este impasse?

B.L. – É muito cedo para sabermos. A verdade é que investiram muito tempo e esforço a construírem relações com o Gabinete de Ligação da China. Aliás, muita gente acredita que uma das principais razões pelas quais Li Gang foi trocado é precisamente por se ter tornado nativo; ou seja, demasiado influenciado pelos poderes locais para aquilo que Pequim gostaria.

– Pequim já sabe o que quer

B.L. – Já perceberam o que está a acontecer; só precisam de ter aqui a pessoa certa para executar o que querem que aconteça. A China tem aqui gente muito inteligente e bem preparada; já sabem o que está mal na política e na economia.

Paulo Rego

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