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São José tem fim à vista

campus da Universidade de São José deverá começar a funcionar no segundo semestre do próximo ano letivo — um ano depois da data prevista pelo empreiteiro e seis anos depois do prazo inicialmente apontado, no lançamento da primeira pedra, em 2009. Ao PLATAFORMA, o reitor Peter Stilwell afirma que, ainda que negativos, os atrasos acabaram por ajudar a que a instituição de ensino superior se preparasse convenientemente para a transição.

Nos números 14 a 16 da Estrada Marginal da Ilha Verde já começa a tomar forma o novo campus da Universidade de São José (USJ), com o pavilhão multi-usos bastante adiantado, bem como a ala académica. Ainda assim, o reitor Peter Stilwell afirma que as aulas só deverão começar no segundo semestre do ano letivo 2016/2017.

O campus terá dois grandes edifícios — a ala académica, que inclui 203 salas, 111 das quais será usada pela USJ e o resto pelo Colégio Diocesano de São José; e a ala residencial, que poderá albergar 128 alunos e 32 docentes. É composto ainda por uma piscina, um anfiteatro, auditórios, além de uma capela, cantina e parques de estacionamento. No chão pode ver-se já calçada portuguesa. 

“Os telhados terão jardins e os tanques terão água, que será usada para regar a parte verde”, diz o reitor, do topo do edifício residencial, apontando para os telhados. Assim, fiel ao conceito inicial, será o que se pode chamar um edifício verde. “Usaremos a água das chuvas, que estará num depósito subterrâneo. E no topo do auditório poderemos produzir eletricidade, de forma a que as águas escoam nesses depósitos e sirvam para regar as plantas e árvores”, diz. “Mantivemos o conceito inicial, mas ainda teremos de ver se é exequível — todo este verde exige muita manutenção, e isso é caro, temos de perceber se é possível”, acrescenta.

A história dos atrasos

Quando a primeira pedra foi lançada, em 2009, estimava-se que o campus estivesse concluído em 2011. “Tudo o que está fora do portão de entrada do campus, pertence ao Governo. Quando avançámos, o Governo já tinha decidido que haveria uma estrada maior e uma rotunda para servir a comunidade”, recorda, acrescentando: “Por isso, estivemos em negociação com o Governo, de forma a que houvesse uma concessão de parte do terreno para a Diocese de Macau.” Ainda assim, das obras resultaram algumas situações insólitas. “O nosso portão de entrada está construído em terreno público. No subsolo temos garagens, mas não as podemos construir em terreno público. Por isso, temos garagens de um lado e garagens do outro, mas não podemos ligá-las”, diz.

Quando Peter Stilwell assumiu funções, em 2012, já tudo estava pronto para o concurso público para definir o empreiteiro. “A Hsin Chong ganhou, mas depois tivemos atrasos em conseguir licenças para que conseguissem começar os trabalhos”, diz. No total, entre a data de assinatura de contrato com a empresa Hsin Chong — em Novembro de 2012 — e os primeiros trabalhos decorreram nove meses. “Depois, houve problemas entre a Hsin Chong e os sub-empreiteiros que escolheram. E os trabalhos não decorreram de acordo com a velocidade e qualidade esperada”, realça. “Era suposto estar concluído em Abril do ano passado e já se passou mais de um ano depois disso”, acrescenta. 

Recorde-se que em meados de 2015, veio a público a existência de um conflito entre a empresa de construção, Hsin Chong, e uma sub-contratada de Macau. Na altura, a Universidade de São José emitiu um comunicado, afirmando que o contrato entre a Fundação Católica da Diocese de Macau com a Hsin Chong foi assinado em Novembro de 2012, e em Junho deste ano “a USJ foi abordada por uma empresa da China continental, sub-subcontratante da obra, com sérias reivindicações contra uma subcontratante da mesma”.

E ainda falta apurar as responsabilidades pelos atrasos, mas para o reitor há que tentar primeiro mecanismos extra-judiciais. “As coisas resolvem-se sempre melhor pelo diálogo. Temos peritos e fiscais que seguiram os trabalhos e vamos ver se chegamos a um acordo [com a Hsin Chong]”, diz, esclarecendo que não houve derrapagens orçamentais da parte da Fundação Católica da Diocese de Macau. “Estamos dentro do orçamento. Afetou o orçamento deles, mas não o nosso. Claro que eles vão alegar que isto teve impacto no nosso orçamento, mas nós vamos dizer que não podemos ser responsabilizados por estes atrasos.”

A obra está orçada em 520 milhões de patacas. O projeto inclui financiamento da Fundação Macau (150 milhões de patacas), da Direção dos Serviços de Educação e Juventude – neste caso para a vertente de ensino secundário – e de investidores privados.

Uma transição suave

No primeiro semestre do próximo ano, alguns funcionários deverão começar a ser transferidos para o novo campus, de forma a proceder aos testes necessários antes do início das aulas. “Deverão transferir-se os departamentos que não têm muito contato com os alunos, como o departamento de Informática”, diz.

Dado que o atraso será novamente inevitável, Peter Stilwell assume que está em curso aquilo que chama de plano de contingência. “O plano A seria começar em Setembro, mas é ilógico pensar que isso seria possível. Mesmo que nos entreguem o campus no fim de Julho — o que é pouco provável — ainda há muita coisa a resolver, nomeadamente o bar, as instalações desportivas, a piscina, o campo de basquetebol.” Assim, deverá haver a extensão do contrato de arrendamento de alguns dos edifícios onde a Universidade se encontra ainda a funcionar.

Atualmente, a Universidade tem 1300 alunos matriculados. Mas o novo campus universitário deverá acolher até 1.800 alunos — alunos que deverão frequentar as aulas durante o dia. E esse número poderá chegar até um total de 2.200, ao incluir-se os cursos que têm lugar à noite. “Por alto, poderemos ter no máximo 2.200 alunos. Entre 1800 e 2200 seria um número sustentável para a USJ”, diz. O estabelecimento de ensino secundário terá espaço para até 800 estudantes. “O Colégio já nos disse não estar a pensar mudar antes de Setembro de 2017”, adianta. 

No que toca ao dormitório, Peter Stilwell refere que há espaço para perto de 130 camas. À Universidade de São José não é permitido acolher alunos da China Continental. “Já pedimos, mas continuamos sem saber se vão aceder ao nosso pedido. Temos boas condições [para acolher estudantes da China Continental]”, refere. Ainda assim, considerando que por enquanto não lhes é permitido, irão apostar num nicho de alunos internacionais. “Somos uma Universidade internacional, temos muitas nacionalidades debaixo do mesmo teto. Vamos tentar recrutar alunos de países como a Tailândia, Malásia, Coreia, Europa, Brasil e países de língua Portuguesa”, refere.

Quanto à oferta de cursos, o reitor garante que está adaptada às dimensões atuais da Universidade, exigindo alguma organização. “Por enquanto, não fizemos nenhum pedido que alterasse substancialmente esta situação. Vamos apostar no pedido de renovação de determinados cursos. E temos alguns cursos com aulas à noite e isso não choca com os alunos a frequentar a licenciatura.”

No próximo ano letivo deverá abrir já a licenciatura em Estudos Portugueses e Chineses e estão à espera de um pedido para a abertura de uma licenciatura em Filosofia. Ainda assim, garante que não haverá um aumento significativo na oferta de cursos, quando a transferência para o novo campus tiver lugar. “Torna-se complicado se tivermos um portofólio demasiado grande. O melhor é ter uma oferta base e generalista de licenciaturas.”

Sobre se os atrasos nos prazos de conclusão do novo campus universitário comprometeram o crescimento da instituição de ensino superior, o reitor prefere não especular. E adianta: “Foi construído a um ritmo sustentável para nós. Talvez a universidade não tivesse levado adiante as mudanças que precisava. O financiamento também exige tempo e temos sido capazes de cumprir sem atrasos os nossos pagamentos.”

O reitor garante que não houve derrapagem orçamental desde que as obras tiveram início. “Pagamos conforme os preços contratados. Claro que haverá discussões [com os empreiteiros] sobre aumentos nos preços, teremos de nos sentar e conversar”, declara. Ainda assim, espera que não haja alterações significativas. 

O mandato de Peter Stilwell à frente da USJ terminaria em Maio, mas o reitor já admitiu manter-se na atual posição, ainda que seja incerto por quanto tempo. 

Luciana Leitão

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