Angolanos à margem da ajuda do FMI - Plataforma Media

Angolanos à margem da ajuda do FMI

Angola pediu ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI) mas a notícia ainda não se sente no quotidiano dos angolanos, que se queixam mais do aumento do custo de vida e da falta de dinheiro que do novo empréstimo. 

Pedro Manuel “Razão” não sabe que Angola pediu ajuda ao FMI, mas sabe que a vida está difícil nos últimos tempos e é uma das vítimas da crise. “Estamos sem receber os salários de fevereiro e março, mas prometeram-nos que vão resolver a situação, que estão a fazer de tudo para nos pagarem”, diz o segurança em Luanda, que diz desconhecer o que é o FMI. Pensava que a instituição internacional era “uma rádio”, diz. 

“Para mim está a ser mais difícil o aumento dos bens de consumo primário, causado pela inflação. Hoje o nosso dinheiro (kwanza) perdeu valor, o que antes comprava com o meu salário já não consigo, está tudo muito caro, oxalá as coisas mudem, porque senão não sei onde vamos parar”, diz Justina Lukunda, professora de 35 anos.

Com um salário de 600 euros, a docente mostra-se pessimista com o futuro a curto-prazo. “A situação do país já está bastante difícil e o envolvimento de Angola com o FMI, que é uma instituição séria e com prazos rígidos, pode dificultar ainda mais o atual quadro, a vida da população, que é a que mais sofre com os cortes”, salienta Justina Lukunda, temendo que a política de austeridade replique a crise social por que passou Portugal passou nos últimos anos, levando milhares de portugueses a emigrar.

A queda do preço do petróleo criou uma tempestade económica em Angola, que nunca conseguiu fugir à dependência do setor energético e que agora se vê sem verbas para os compromissos assumidos. “Com o objetivo de desenhar políticas macroeconómicas e reformas que restaurem o crescimento económico forte e sustentável, de fortalecer a moldura institucional que suporta as políticas económicas, de lidar com as necessidades da balança de pagamento, e manter um nível adequado de reservas internacionais, o Governo pediu o apoio do FMI para complementar a atempada resposta ao declínio dos preços do petróleo”, justificou o Ministério angolano das Finanças, no início de abril. 

O objetivo, insiste o governo, é ter o FMI como tutor de uma alteração estrutural da economia nacional. “Em função das circunstâncias, [o programa] pode trazer pacotes financeiros para apoiar as medidas de política que venham a ser implementadas”, disse o ministro das Finanças, Armando Manuel. “A forma de recuperarmos da redução dos dividendos gerados pela exportação do petróleo é ter um crescimento inclusivo e este crescimento inclusivo deve ser alcançado pela diversificação da economia”, destacou o governante, negando que se trate de um resgate como o que se passou em Portugal. No entanto, tradicionalmente, o recurso ao PFA (Extended Fund Facility, na expressão em inglês) inclui um conjunto de medidas de política económica e uma componente financeira que é libertada à medida que as metas vão sendo cumpridas.

No entanto, estas preocupações macroeconómicas ainda não se sentem no quotidiano dos angolanos que lutam por assegurar o ganha-pão diário. Funcionário bancário, Hélder Felismino Maurício, 30 anos, considera que a situação “já bastante difícil” deverá agravar-se para todos, sobretudo para os mais pobres. “Para mim o mais difícil estão a ser as restrições bancárias, tem sido difícil ver clientes que se dirigem ao banco, solicitando a compra de divisas e sem podermos dar resposta, muitas vezes somos ofendidos, mas não podemos fazer nada”, explica o bancário. 

A falta de divisas é evidente e sente-se na vida das empresas e dos trabalhadores. Na semana passada, o Banco Nacional de Angola (BNA) vendeu perto de 400 milhões de dólares em divisas aos bancos comerciais e mais de 70 por cento da verba destinou-se a garantir a importação de alimentos num país que pouco produz. O kwanza continua a desvalorizar todas as semanas mas os analistas estimam que a primeira condição do empréstimo seja um corte ainda maior na moeda angolana. 

Mas os problemas da economia angolana dificilmente ficarão resolvidos com este empréstimo do FMI, consideram os analistas. A falta de transparência dos mecanismos financeiros, os elevados níveis de corrupção, a falta de quadros e os problemas estruturais do setor produtivo são alguns dos problemas elencados. Soren Kirk Jensen, da Chatham House, considera que a ajuda FMI só terá sucesso se os líderes angolanos “abraçarem mudanças estruturais profundas” em vez de pensarem apenas no curto prazo. “Um acordo com o FMI não vai mudar a economia de Angola por si só; vai dar alguma assistência financeira, mas mais importante que isso, pode encorajar as reformas; o sucesso da ajuda, no entanto, depende do apetite genuíno de Angola em abraçar mudanças estruturais profundas em vez de medida de curto prazo destinadas a aumentar a liquidez até os preços do petróleo subirem”, sustenta o investigador da Chatham House. “Uma falta de transparência leva a significativos riscos orçamentais, principalmente despesas escondidas que podem tornar o peso da dívida ser insustentável de um dia para o outro”, acrescenta o especialista.

Os valores só serão discutidos em maio mas analistas estimam que a verba possa atingir os 1,5 mil milhões de dólares. “É ainda cedo para dizer quais serão os detalhes porque acabamos de iniciar as discussões. Mas, certamente, esperamos avançar bem rápido”, afirmou a diretora do Departamento Africano do Fundo, Antoinette Sayeh, numa conferência de imprensa em Washington, em que apontou a queda do petróleo como a grande razão da intervenção. “Angola é uma das economias que sofreu bastante com o choque do petróleo já que 95% das suas exportações são do petróleo do qual dependem também para as receitas do governo. É um tempo muito difícil para Angola”, analisou a economista liberiana.

Mas nas ruas de Luanda, Pedro Manuel “Razão” não sabe disso. Luta por tentar sobreviver aos atrasos nos salários e ao aumento do custo de vida. A sua sorte é que em casa própria. “Pelo menos quanto a isso estou descansado, o problema mesmo é com a alimentação, a escola das crianças e a saúde, tenho colegas que vivem em casa arrendada e estão em ‘makas’ (problemas) com os senhorios”, diz. 

Nisa Mendes

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