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Quebra na China afeta todo o mundo

Economistas do FMI modelaram os efeitos de choque sobre a economia mundial de um abrandamento mais profundo na China.
Nenhuma economia está imune. Hong Kong e Singapura são as mais afetadas 

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A China deve considerar medidas de apoio político, ainda que modesto, aos seus principais parceiros comerciais caso ocorra uma quebra maior que o estimado nas suas importações. A ideia é sugerida por economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) num estudo que analisa os efeitos em cadeia nas redes de comércio mundial de um maior abrandamento da procura no país. 

O estudo foi conduzido por Alexei Kireyev e Andrei Leonidov, num documento que parte da hipótese de a meta de crescimento chinês de 6,5 por cento a 7 por cento para este ano ficar um ponto percentual abaixo do esperado, com uma contração em 10 por cento no valor nominal das importações da China aos seus parceiros. 

Os economistas mediram os efeitos em cadeia gerados por esta quebra e concluem que, a verificar-se o cenário, todos os países do mundo enfrentariam um impacto negativo na ordem de 1,2 por cento dos respectivos PIB nas suas receitas de exportações. Isto, porque a China mantém relações comerciais virtualmente com todos os países do globo, e porque os cálculos usados no estudo medem não apenas o impacto direto da atividade chinesa nos mercados que exportam para o país, mas também as dinâmicas entre os países afectados e retorno destes impactos à China na qualidade, também, de exportadora. 

“Apesar de a moderação do crescimento da China estar largamente em linha com o projetado, o impacto internacional do abrandamento das importações chinesas parece já maior do que o esperado”, notam os autores desta publicação.

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Na passada semana, David Lipton, número dois do FMI, alertou para os riscos crescentes de a economia global “descarrilar”, pedindo esforços concertados das economias desenvolvidas para promover o crescimento. A organização admitiu que a expectativa de crescimento mundial de 3,4 por cento, numa revisão em baixa de Janeiro último, poderá já estar ultrapassada.

Também a OCDE lançou expectativas de um desaceleração no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Japão, ao mesmo tempo que as economias dos mercados emergentes continuam também a dar sinais de abrandar. Em Fevereiro, a expansão neste grupo de economias terá sido de 2,8 por cento, contra 3,1 por cento no mês anterior, de acordo com o grupo internacional Insitute of International Finance.

Nos últimos meses, os indicadores do comércio chinês mantiveram os sinais de deterioração, do lado das exportações, sobretudo, ainda que possam ser considerados os efeitos sazonais da ocorrência do Ano Novo Lunar – a resposta a encomendas tende a concentrar-se antes das festividades, caindo depois. Em Fevereiro, as exportações chinesas caíram, quando consideradas em dólares norte-americanos, 25,4 por cento em termos homólogos, contra uma quebra de 11,2 por cento verificada em Janeiro. Já as importações registaram melhorias, caindo 13,8 por cento, por comparação com uma quebra de 18,8 por cento em Janeiro. 

Mas, caso as importações chinesas caiam acima do previsto ao longo deste ano, os efeitos poderão ser substanciais e, alerta o documento agora publicado pelos economistas do FMI, deverão também ser amplificados a partir de um choque inicial. O impacto negativo de 1,2 por cento do PIB nas receitas de exportações dos diferentes países, em 2016, quando tido em conta este modelo de dinâmica de impactos em cadeia, reflete-se em 2017 numa penalização já de dois por cento. As ondas de propagação, entre países parceiros da China, e entre estes e novamente a China, tenderão a perder intensidade ao longo de um período de quatro anos para, em 2020, resultarem numa redução de receitas de exportação para cada país na ordem dos 0,2 por cento da respectiva atividade económica. 

“A China e os seus parceiros comerciais estão perante o desafio de mitigarem possíveis efeitos em cadeia do abrandamento das respectivas importações”, defende o documento,retomandoasrecomendaçõesdo FMI para que a China evite um abrandamento económico demasiado rápido, reduza vulnerabilidades de crédito após um período de expansão rápida do investimento, e reforce o papel das forças de mercado na economia. Ao mesmo tempo, poderá garantir apoio político modesto aos seus principais parceiros comerciais, sugerem os autores. 

O cenário de ondas de choque descrito pelos economistas aponta no sentido de os efeitos negativos serem mais profundos para as economias da Ásia e do Pacífico. Os cálculos realizados estimam um impacto negativo na ordem de 2,3 por cento do PIB da região em 2016, amplificado para 3,5 por cento em 2017. Os efeitos acumulados no período até 2020 estão estimados numa quebra de receitas económicas no valor de oito por cento do PIB da Ásia-Pacífico. 

Os efeitos serão menos significativos para as economias avançadas, no cômputo geral, uma vez que o modelo assume que a uma quebra nas receitas de exportações não corresponderá um a diminuição no nível das importações. O impacto negativo possível para 2016 é de 0,6 por cento da atividade deste conjunto de economias. 

Hong Kong, concluem os autores do estudo, será a economia mais afectada caso a quebra de importações da China se aprofunde. A região administrativa especial pode enfrentar uma perda de receitas com a dimensão de 19 por cento do seu PIB até 2020. Singapura será a segunda economia mais afectada (menos 17 por cento), seguida da Tailândia (menos 10,2 por cento), da Malásia (menos 9,7 por cento), da Mongólia (menos 8,2 por cento), do Vietname (menos oito por cento) e da Coreia do Sul (menos 6,9 por cento). Já o efeito boomerang sobre a própria China representa um retorno negativo de 1,5 por cento do PIB do país. Portugal e Brasil estão entre os países menos afectados, com impactos negativos em 2,2 por cento e 1,9 por cento do PIB, respectivamente. 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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