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Países africanos exportadores a braços com novo normal

O efeito do ajustamento chinês é negativo, sobretudo, para Angola e Nigéria, segundo as estimativas do Fundo Monetário Internacional.

Angola e Nigéria estão entre o grupo de países onde o impacto do abrandamento económico chinês será maior. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu em baixo as estimativas e projecções para o conjunto da África subsariana, onde os exportadores de matérias-primas serão os mais penalizados no efeito acumulado da descida dos combustíveis e expectativas de uma redução da procura por parte do mercado chinês. O último relatório de perspectivassobre a economia mundial, publicado na semana passada na antecâmara das reuniões do Banco Mundial e FMI em Lima, no Peru, revê o crescimento do conjunto das economias da África subsariana em 2015 para 3,8 por cento, 0,7 por cento abaixo do estimado em Abril. As projecções para 2016 caem em 0,8 por cento, para 4,3 por cento.

O cenário descrito pelo FMI é optimista – parte do princípio de uma ajustamento conseguido nas políticas económicas da China. O país mantém-se com uma estimativa de expansão do PIB a 6,8 por cento este ano, projectando-se que a economia cresça 6,3 por cento em 2016. Ainda assim, são contabilizados efeitos negativos que repercutem sobretudo a descida no preço das matérias-primas – em particular, o petróleo, já afectado pelo excesso de produção e stocks nalguns dos países produtores – e uma menor procura por parte da China, o maior parceiro comercial individual da África subsariana. Uma esperada subida nas taxas de juros nos Estados Unidos também é contabilizada como factor de contacção nas condições financeiras das economias de fronteira. Se o resultado geral assume perdas para a região africana, os efeitos não serão no entanto negativos para todos na perspectiva subscrita pelo FMI. A Nigéria apresenta-se como o país que tem mais a perder: para este ano, espera-se um crescimento de quatro por cento contra o de 6,25 por cento do ano anterior. Angola poderá terminar o ano com uma aumento do PIB de 3,5 por cento, significativamente abaixo dos 5 por cento de 2014. Mas, para outros, a descida nas matérias-primas exponenciada pelo efeito chinês trará efeitos positivos. É o caso dos importadores do petróleo com investimento em infra-estruturas e onde se tem verificado um aumento do consumo interno, para os quais se estima uma crescimento médio de 7 por cento. Moçambique, Tanzânia, Etiópia, República Democrática do Congo e Costa do Marfim estão neste grupo – o único beneficiado no contexto africano.

Outros exportadores de matérias-primas – Serra Leoa e Zâmbia – verão a sua actividade económica retrair no cenário de novo normal a que se têm vindo a acomodar as previsões. Outros ainda sofrerão com as próprias insuficiências: África do Sul, que deverá crescer abaixo de 1,5 por cento, e o Gana cuja actividade abrandará para 3,5 por cento de crescimento em 2015. O cenário para estes dois países reflecte falhas de oferta no sector energético e também processos de consolidação fiscal. O quadro descrito pelo FMI assume uma queda agravada nos preços das matériasprimas, estimando quedas no petróleo de 46,4 por cento, e de 16,9 por cento nos preços de metais e produtos agrícolas. Reflecte também uma quebra de 3,2 por cento na actividade comercial global. E responde aos compromissos políticos internacionais assumidos por Pequim com uma nota menos negativa para actividade económica global.

“As previsões assumem que a acção política será consistente com uma redução das vulnerabilidades do recente crescimento rápido do crédito e do investimento e que, portanto, não visará a total mitigação da subjacente moderação da actividade”, anota o Fundo Monetário. Ou seja, acredita-se que Pequim assumirá no curto prazo o abrandamento, realizando as reformas necessárias para retomar o ritmo a médio e longo prazo.

Mas se o cenário de reajustamento gradual é favorecido no texto de perspectivas, não é este o único que pode ser tido em consideração. Os economistas Derek Anderson, Jorge Ivan CanalesKriljenko, Paulo Drummond, Pedro Espaillat e DirkMuir, também do FMI, produziram na mesma semana um documento que se propõe explicar os efeitos de contaminação do novo normal chinês aos países da África subsariana. Estão sobre a mesatrês cenários alternativos – sem qualquer juízo por parte dos autores sobre aquele que será mais provável.

No primeiro caso, assume-sse um cenário de quebra prolongada da actividade económica da China, erradamente interpretada nos estágios iniciais como um fenómeno cíclico. O impacto é uma redução em 1,6 por cento do PIB real global, com efeitos díspares para as economias africanas consoante a sua posição predominante nas trocas internacionais. Para os importadores, o efeito será neutral em termos líquidos (com uma resposta positiva do consumo e da produção à descida de preços), mas para os exportadores projecta-se uma redução de 0,5 por cento no PIB esperado.

O segundo cenário testado alinha-se mais com as expectativas de reforma já manifestadas. E, neste, os preços do petróleo retomam o crescimento a prazo (mais 15 por cento). O efeito é positivo para os exportadores africanos (mais um ponto percentual no PIB real), mas não há qualquer benefício para os importadores. Aqui, diverge das estimativas imediatas do documento de perspectivas do FMI. Por fim, os autores do estudo equacionam um cenário em que, perante a desaceleração da actividade e custos acrescidos de produção, 2 por cento da actividade manufactureira da China são transferidos para a África subsariano – presumivelmente, beneficiando as economias de maior dimensão. Para a região, representará quatro pontos percentuais acrescidos na taxa de crescimento do PIB real relativamente ao ponto de partida.

Mais do que fazer projecções, o que o estudo pretende discriminar são as vulnerabilidades inerentes às ligações entre este conjunto de países e o comportamento da economia chinesa, numa engrenagem que também reflecte a reacção global ao novo normal.

O documento sublinha o peso de 15 anos de aproximação. Representaram no ano passado 109 mil milhões de dólares norteamericanos de comércio bilateral e valores anuais de investimento na ordem dos dois mil milhões de dólares – 12 por cento do investimento externo absorvido por esta grande região africana. Dos indicadores de interdependência destacam-se também 7,5 mil milhões de dólares em linhas de crédito e ajuda concedidos pela China entre 2010 e 2012 e a constituição de seis xonas económicas especiais de cooperação na Nigéria, Zâmbia, Etiópia e Maurícias.

Maria Caetano

16 de outubro 2015

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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