Brasil e China “pouco dominam sobre a cultura do outro” - Plataforma Media

Brasil e China “pouco dominam sobre a cultura do outro”

O Tai-Chi Institute foi fundado no Brasil em 13 Agosto de 2001, com o intuito de explorar a prestação de serviços de saúde e cultura de inspiração chinesa, e ainda servir como ponte para o mercado empresarial chinês. Em entrevista ao PLATAFORMA, o presidente Gláucio de Oliveira Fontes fala do espaço que as práticas orientais foram ganhando no país e do interesse de alguns municípios do Estado do Rio de Janeiro em participar nos projetos de cooperação existentes em Macau e na província de Cantão. A medicina tradicional chinesa pode ser a chave para essa aculturação se tornar mais abrangente. 

O que é o Tai-Chi Institute?

Gláucio de Oliveira Fontes – O Tai- Chi Institute é uma Organização Não Governamental (ONG) que foi idealizada devido à grande demanda da sociedade por projectos de qualidade de vida.

Concluímos que as técnicas e as terapias tradicionais chinesas serviam como um instrumento de intervenção social com o objectivo de promover mudanças concretas através dos seus projectos teóricos e práticos.

O que diferencia a ONG Tai-Chi Institute de outras ONG’s é a sua filosofia institucional, pois desde a sua criação, a pensámos e a organizámos através da filosofia milenar chinesa, que lhe conferiu um pioneirismo em todo o território brasileiro, aproximando desta forma as instituições oficiais chinesas das suas actividades.

E em que se baseia essa filosofia?

G.O.F. – A filosofia institucional do Tai- Chi Institute é a educação desconectiva, conhecida por Taoísmo, que é pautada na filosofia milenar chinesa através das suas três obras clássicas fazendo com que as actividades sejam estruturadas em três pilares sequenciais: o primeiro é a área da saúde, pois ninguém com dor, fome ou sede dará atenção a nenhuma actividade antes que lhe seja sanada essas carências; o segundo pilar a educação, pois somente através de suas actividades educacionais preventivas evitaremos a existência e a reincidência dos problemas sociais, quebrando desta forma o ciclo de perpetuação; e o terceiro pilar, a área do meio ambiente, através da mobilização e consciencialização das mudanças de atitudes pessoais, criando assim novos multiplicadores da educação desconectiva que tem a prevenção como principal característica. Ou seja, os membros do Tai-Chi Institute não são apagadores de incêndios sociais. Os projectos são idealizados e estruturados quando analisamos a necessidade de uma empresa ou de uma comunidade. Após colhermos as informações básicas locais, que serão debatidas no grupo, estruturam-se as prioridades a serem atendidas através das ações de um ou mais projetos adequados a suprir a necessidade selecionada e a auto-sustentabilidade do mesmo.

Da sua experiência, em que é que a cultura oriental consegue ser um elemento diferenciador no Brasil? Sei que fez parte de uma equipa que ministrou um curso ao BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais). Em que é que pode fazer diferença?

G.O.F. – Fui convidado para um projecto pioneiro de aperfeiçoamento do BOPE, da Polícia Militar do Rio de Janeiro, em Janeiro de 2001 após o famoso caso do Ônibus 174, em 12 de Junho de 2000. Nesse projecto, fiquei responsável pelo controlo emocional dos policiais militares do BOPE com a utilização das técnicas de yoga e meditação. A cultura chinesa diferencia-se da cultura brasileira no hábito de planear estrategicamente e com antecedência todos os projectos, sejam micro ou macro. É uma prática retirada do clássico “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu.

E como tem sido a promoção da cultura chinesa feita pelo Tai-Chi Institute.

G.O.F. – A nossa equipa foi a primeira a levantar informações sobre a chegada dos primeiros imigrantes chineses ao Brasil, contribuindo dessa forma para a comemoração do 200 Anos de Imigração Chinesa em 2012. Os primeiros imigrantes chineses chegaram ao Brasil no Porto de Mauá na Cidade de Magé, no Estado do Rio de Janeiro, em 1812, oriundos de Macau e Cantão, para a construção das primeiras fazendas de chá, construção das linhas férreas e a construção dos primeiros aquedutos de água. Ou seja, a presença chinesa no Brasil tem sido crescente, e hoje vê-se como a China é o principal parceiro económico do Brasil. Devido ao crescimento desta importante parceria estratégica temos sido mais solicitados, por exemplo, para promover os Encontros Culturais e Comerciais Brasil e China da Baixada Fluminense, uma região que engloba 13 cidades do Estado do Rio de Janeiro, e que possui a maior concentração de imigrantes chineses. O primeiro e o segundo encontros ocorreram em 2005 e 2006 na cidade de Nova Iguaçu, o terceiro encontro ocorreu em 2008, na cidade de Duque de Caxias, e o quarto encontro ocorreu em 2009 na cidade de Nilópolis, todos com a presença dos representantes do Consulado Geral da República Popular da China no Estado do Rio de Janeiro.

O Fórum Macau e o Instituto de Promoção do Comércio e Investimento (IPIM) têm feito acções de promoção em algumas cidades brasileiras, incluindo o Rio de Janeiro. O nome de Macau ‘e conhecido?

G.O.F. – Chegámos a participar num importante evento realizado em 2014, na cidade do Rio de Janeiro, e sabemos que Macau tem um importantíssimo papel por ser uma plataforma nas relações culturais e comerciais entre a China e os países de língua portuguesa.

A língua portuguesa que se fala em Macau e no Fórum, pode ser um elo importante que liga o Brasil e a China?

G.O.F. – Sim, porque, ao contrário da China, o Brasil não tem o idioma inglês como uma segunda língua nas escolas.

Que ramos de actividades podem interessar mais nesse intercâmbio entre os dois países?

G.O.F. – Ambos os países pouco dominam sobre a cultura do outro, mesmo com o advento da internet. No passado as artes marciais Wu-Shu foram o grande interesse popular através dos filmes do mestre Bruce Lee. Hoje em dia, além do grande interesse comercial, o interesse pelas terapias tradicionais chinesas como a acupunctura, o qi gong, tai-chi-chuan, qi-chân, a fito terapia chinesa, e até a culinária chinesa estão a crescer.

Como vê o papel do Brasil no Fórum de Macau?

G.O.F. – Poderia e deveria ser maior, pois ainda é pouco divulgado no Brasil.

Então, sendo o Brasil um país com uma escala considerável, no caso do Estado do Rio de Janeiro, algumas cidades podem individualmente estabelecer contactos para negócios com a China?

G.O.F. – Sim, inclusive vários prefeitos das cidades que compõem o Estado do Rio de Janeiro estão a procurar o Tai-Chi Institute para aproximá-los da China. Um exemplo dessas acções é o interesse do secretário de saúde do Estado do Rio de Janeiro e do prefeito do município de Belford Roxo em criar uma parceria com o pólo de medicina tradicional chinesa e com as feiras de Macau e de Cantão.

Sandra Lobo Pimentel

25 de setembRo 2015

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