Paulo Rego - MORAL CONFUCIANA - Plataforma Media

Paulo Rego – MORAL CONFUCIANA

 

O vírus da corrupção mina a legitimidade da política moderna, espalhando-se como uma inivitabilidade humana agarrada aos genes da tentação. Longe de ser um exclusivo dos novos tempos, o fenómeno ganhou fatores de multiplicação com o advento do capitalismo global. Como se lê no relatório da Transparência Internacional, que analisamos nesta edição, a corrupção atravessa todos os continentes e os mais diversos regimes políticos, adensando assim a descrença das populações, que testemunham a corrupção com desencanto ideológico e descrença política.

Casos como os do Brasil ou da China chamam contudo a atenção para o potencial profilático da narrativa da cura. Mesmo em Macau, onde a realidade é diferente da que se vive no Continente, é hoje perceptível o receio dos efeitos potenciais da campanha contra a corrupção lançada por todo o país. Sentem-se os primeiros sinais de uma maior cultura de exigência no rigor nas contas públicas, tendo havido instruções claras para a contenção de custos na fase final do primeiro mandato de Chui Sai.

Várias vozes se levantam a questionar os eventuais aproveitamentos políticos deste tipo de movimentos, uma vez que as condenações se sucedem a um ritmo que poderá não respeitar os passos seguros de uma justiça que se quer cega face à luta entre gerações que assumem o poder e aquelas que as precederam. Mas a crítica está desfocada. A verdade é que em nome da moral pública, da justiça social e da ética nos negócios, o combate à corrupção só pode ser apoiado e elogiado, sejam quais forem as suas eventuais motivações de base. O que importa é garantir a transparência e a legitimidade da Justiça.

Dilma Roussef enfrentou recentemente sérios riscos de não ser reeleita, precisamente por causa da percepção generalizada de que não combateu a corrupção. Mesmo não a acusando de implicação direta em qualquer caso concreto, os seus adversários tentaram colá-la a um certo facilitismo que beneficiaria o Partido dos Trabalhadores e o seu acesso aos dinheiros do Estado. O caso da China será o mais contundente, porque é a própria liderança política a assumir a corrupção como uma fera à solta que urge domesticar. O combate à corrupção pode até nem ser movido pela força pura de uma moral superior, mas a verdade é que o Partido Comunista sente que a consciência popular do fenómeno traz riscos à própria sobrevivência do regime. Não havendo sufrágio universal, é essencial o exercício de legitimação do partido único, transmitindo confiança na honestidade dos governantes e na transparência dos seus atos. Na senda da filosofia confuciana, manda quem manda, porque sabe e pode; mas é na sua virtude que reside a sua legitimidade. Quem não a tiver verá contestada a sua autoridade.

Quando ascendeu à cúpula do poder, Xi Jinping já havia percebido que os altos índices de rutura social estavam diretamente ligados à contradição entre salários públicos controlados e o luxo que muitos dirigentes ostentavam. Um camponês que chega à cidade, com a ambição de acrescentar carne à tijela de arroz, não precisa de ser nenhum génio para perceber que tantos ferraris e lamborguinis não se pagam com virtude e honestidade.

A educação, a desburocratização do sistema ou a cultura de transparência terão efeitos mais sustentados no médio e no longo prazo. Mas se há crime, tem de haver castigo. Porque o medo das consequências faz necessariamente parte da fórmula do remédio. Na China, no Brasil, em Portugal, ou em qualquer outro país do mundo, a suspeita não deve concentrar-se nas eventuais motivações políticas de uma decisão, em si mesma, saudável. O que importa assegurar é que a Justiça não seja politizada, cumprindo apenas o seu papel e não outro que não lhe caiba. Caso contrário, também ela perde virtude; ou seja, perde a sua própria legitimidade.

 

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