BISPO DEFENDE REATIVAÇÃO DO SEMINÁRIO PARA INTERCÂMBIO CULTURAL - Plataforma Media

BISPO DEFENDE REATIVAÇÃO DO SEMINÁRIO PARA INTERCÂMBIO CULTURAL

 

O Seminário de São José conta hoje com apenas um seminarista, mas o bispo de Macau defende a sua reativação, nomeadamente como lugar de formação de missionários ocidentais e de estudos de línguas latinas, com portas abertas aos locais.

 

Depois de ter sido um dos principais centros de formação de missionários para o Extremo Oriente, o Seminário de São José, fundado no século XVIII pelos jesuítas ao serviço do Império português, tem hoje apenas um candidato a sacerdote, natural de Macau, mas “não corre o risco de fechar”, garante o bispo José Lai, em declarações ao Plataforma Macau.

“Não vamos fechar, vamos continuar o trabalho de formação de futuros padres e também podemos fazer ali um centro de estudos de línguas latinas (português, espanhol, francês, italiano e latim) sobretudo para os missionários, mas também para os habitantes de Macau que tenham interesse de conhecer essas línguas”, apontou.

Ao considerar que “é uma vantagem dar continuidade ao seminário como um lugar de formação e estudo e de intercâmbio cultural”, José Lai explica que a ideia é que “locais possam aí aprender línguas latinas e missionários ocidentais possam, ao mesmo tempo, aprender a cultura chinesa”. “Poderemos abrir no seminário este currículo de formação”, disse.

No futuro, acrescentou, o seminário poderá servir de “plataforma para os países de língua portuguesa”, nomeadamente aqueles que tenham maiores carências de padres, “se tiver muitos alunos que estudem o português”, reiterando, no entanto, que a ideia passa por uma aposta não só no ensino do português, mas também de outras línguas latinas, bem como da “cultura chinesa aos estrangeiros, sobretudo aos missionários que venham trabalhar em Macau”.

Segundo o bispo, o seminário vai continuar o trabalho de formação dos candidatos a sacerdotes, devendo, simultaneamente, ser um “lugar de formação humanística, cultural e religiosa dos católicos”.

“No futuro poderemos recrutar alunos do secundário para fazerem esse nível de ensino no seminário”, salientou.

O Seminário de São José tem hoje só um seminarista, que é um chinês de Macau, que estuda no primeiro ano de filosofia na Universidade de São José e recebe formação espiritual no seminário, que “tem um ou dois padres formadores”. No total, a formação de um seminarista em Macau dura cerca de seis anos e inclui aulas de teologia também na Universidade de São José.

No passado, toda a formação era dada no seminário, mas atualmente só a parte espiritual tem ali lugar.

O bispo, José Lai, recorda que o seminário tinha antes muitos estudantes provenientes de países de língua portuguesa – que têm como principais elos de ligação a língua e a religião católica -, nomeadamente de Portugal e Timor-Leste, mas que atualmente não existe um intercâmbio com estes países. “Os seminaristas de Timor-Leste vinham estudar aqui no seminário, mas agora como já têm um Díli já não precisam de vir para cá”, explicou.

O Seminário de São José chegou a ministrar no passado dois programas de ensino, um de matriz portuguesa e outro de matriz chinesa, que tinha o português como língua estrangeira e seguia as diretrizes e programas oficiais da Igreja Católica chinesa para formar missionários capazes de evangelizar a China. O seminário contava ainda com um externato para o ensino primário e secundário, encerrado em 1968. Devido à falta de seminaristas, deixou de se dar ali formação a padres em 1967 e a partir de 2007 as instalações do seminário foram reutilizadas para albergar os alunos do curso de Estudos Religiosos da Universidade de São José.

 

FALTAM PADRES

Macau conta hoje com “13 ou 14 padres diocesanos”, a maior parte dos quais idosos e chineses nascidos aqui, constata o bispo ao considerar que o território “tem poucos” sacerdotes.

“Não é fácil encontrar hoje pessoas que queiram ser padres, porque o ambiente social é agora muito materialista, só se quer uma vida fácil e ganhar dinheiro e isso também afeta esta vontade de sacrifício, de servir a Igreja, portanto, temos de cultivar este espírito nos jovens”, considera José Lai.

De acordo com o bispo, hoje a comunidade católica na Região Administrativa Especial chinesa ascende a “cerca de 30 mil pessoas” entre os poucos mais de 600 mil habitantes.

Dos 13 ou 14 padres diocesanos, a maioria até tem conhecimentos de português, mas apenas três têm capacidade para dar missa na língua de Camões, diz José Lai.

“A maior parte dos padres mais novos não foram educados na língua portuguesa e mesmo entre os missionários são poucos os que sabem português”, refere, salientando que “os que estudaram português fizeram-no já entre as décadas de 50 e 70, mas depois muitos foram estudar para fora e já não têm esta cultura portuguesa”.

Até 1999, os padres portugueses diocesanos regressaram todos a Portugal e neste momento não há nenhum em Macau. “Antigamente havia alunos que vinham de Portugal para estudar no nosso seminário, portanto, nesse tempo tínhamos padres de língua portuguesa, mas depois dos anos 70 já não tivemos”, indicou José Lai.

 

LIGAÇÃO COM LUSOFONIA AINDA POR EXPLORAR

Macau tem atualmente apenas um padre lusófono, natural de Timor-Leste, a trabalhar para a Diocese, e poucos missionários e membros de congregações religiosas provenientes de países de língua portuguesa, “talvez uns dois ou três”, de acordo com o bispo.

Das mais de 35 missas rezadas por semana no território, a maioria (cerca de 20) são em chinês, havendo apenas cerca de sete em português, que também é língua oficial. Há mais missas rezadas em Macau em inglês do que em português, cerca de dez, havendo ainda uma por semana que é em tagalog e outra em vietnamita.

“Neste momento é difícil dizer qual é o nosso contributo [para Macau enquanto plataforma para os países de língua portuguesa], podemos talvez pensar nisso para o futuro”, disse José Lai ao defender que esta vertente poderá ser explorada na “formação cultural” de novos padres, nomeadamente ao nível da Universidade de São José, que pertence à Fundação Católica, presidida pelo bispo.

“Como instituição de ensino superior católica, a Universidade de São José poderá pensar nesse intercâmbio cultural [com os países de língua portuguesa] e o seminário também pode fazer umas coisas a nível prático”, sustentou. Ao sublinhar que a “China também gosta que haja este intercâmbio cultural e, por isso, está a olhar para Macau, que já tem 500 anos de tradição portuguesa”, José Lai observa que, “por isso, com toda a razão, Macau deve fomentar este intercâmbio cultural”.

“Por enquanto, a China só pensa em economia, de qualquer forma deviam pensar [no aspeto religioso], porque o homem não é só corpo, tem também alma”, defende. O bispo considera que a China “olha para Macau e sabe que as religiões podem coexistir aqui sem problema”, mas que aplicar isso do outro lado da fronteira “não é tão fácil, porque é difícil de controlar, pois o país é muito grande”. “Têm sobretudo medo, é por causa da segurança nacional, mas acho que pouco a pouco devem pensar em deixar a religião católica desenvolver-se, porque ela não faz mal a ninguém e já tem tantas regras, para quê a nação controlar? Vai perder forças económicas para isso, não vejo vantagens”, aponta.

Para José Lai, resta continuar a dar a “conhecer a pouco e pouco” a religião católica à China, nomeadamente “através de Macau, que tem este bom exemplo da vida harmoniosa, espiritual e religiosa”.

As relações entre a China e a Santa Sé estão cortadas desde a tomada do poder pelo Partido Comunista Chinês (PCC), em 1949, por o Vaticano manter relações diplomáticas com Taiwan, que Pequim considera uma província da China, além de não reconhecer a Igreja Católica Patriótica Chinesa.

Macau e Hong Kong são os únicos locais na China onde a autoridade papal na Igreja Católica Romana é aceite. Na China continental, só a Igreja Patriótica é reconhecida por Pequim, tendo bispos nomeados pela Associação Católica Chinesa e não pelo Vaticano, enquanto a igreja clandestina católica continua a obedecer ao papa.

Foi no século XVI que os missionários jesuítas, muitos dos quais portugueses, partiram para a China, país tido como a chave da cristianização da Ásia. Macau foi porto de abrigo e ponto de partida destes jesuítas para a missão de evangelizar o interior da China, onde o número oficial de cristãos ronda os 20 milhões, enquanto estimativas ocidentais apontam para 50 milhões ou 3,7% da população.

 

Patrícia Neves

 

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