Catarina Domingues - A ESCOLHA DE XIN YING - Plataforma Media

Catarina Domingues – A ESCOLHA DE XIN YING

O meu nome é Xin Ying, sou pansexual. Para mim, o sexo de uma pessoa não se divide apenas entre homens e mulheres, mas mais do que isso.

No ano passado, apaixonei-me por um transexual. Como era o corpo? Era de uma mulher, mas a identidade não. Foi sempre assim? Quando era pequena todas as minhas fantasias eram com mulheres. E com quem falavas? Com ninguém, o mundo odiava os homossexuais. Que aconteceu depois? Entrei na universidade, e gostava de homens afeminados, e de mulheres masculinas, e por isso sentia-me diferente, sentia que ia ficar sozinha.

De onde veio a força? Dos livros. Gloria Jean Watkins, Judith Butler e a sexologista chinesa Li Yinhe ajudaram a definir a minha própria identidade. E os teus pais? A minha mãe sabe que sou pansexual, o meu pai não, é um patriota.

Xin Ying é diretora executiva do Centro LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros) de Pequim. É pequenina, e um ar frágil, apesar dos lábios carregados a vermelho, apesar do nome inglês – Iron.

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Behind the red door – Sex in China é um livro do jornalista norte-americano Richard Burger. É uma viagem à sexualidade da China, desde os períodos dinásticos até aos dias de hoje. “Em nenhum outro país, a homossexualidade tem uma história tão rica e tão pouco comum. Durante séculos, a China foi mais tolerante com o amor entre o mesmo sexo do que qualquer outra sociedade, rivalizada apenas pela Grécia Antiga e Roma”, escreve o autor, explicando que já durante a dinastia Tang – há mais de mil anos – a China “não só tolerava a homossexualidade, como a celebrava”.

E continua: “Um estudioso dos últimos períodos da dinastia Ming descreve como no sul da província de Fujian homossexuais viviam juntos como casados e com o apoio dos pais e família”.

Menos impressionado ficou o missionário jesuíta português Gaspar da Cruz, que segundo Burger, deixou registadas as seguintes palavras durante uma viagem a Cantão: “O que revela a miséria deste povo é que, não menos do que os desejos naturais, praticam outros que revertem a ordem das coisas: e isto não é proibido por lei ou visto de forma ilícita, ou mesmo causa de vergonha. É falado em público e praticado em todo o lado, sem que haja alguém que o previna”.

Quando os manchus subiram ao poder, acreditava-se que o laxismo filosófico, político e moral contribuíra em parte para a queda da dinastia Ming. No entanto, ainda durante a dinastia Qing, as relações sexuais entre os homens do poder e jovens da classe baixa eram ignoradas pelas autoridades e aceites como uma forma de demonstração de poder.Já com a fundação da República Popular da China, Mao Zedong fez tábua rasa do sexo. A intimidade tornou-se num tabu, deixou de haver entendimento sobre a homossexualidade, que foi proibida, vista como uma doença, um ato de vandalismo. O mundo mudava, e a China caminhava em sentido contrário.

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26 de fevereiro de 2013: duas mulheres vão ao Gabinete para os Assuntos Civis do distrito de Dongcheng, em Pequim, para casarem. O pedido é recusado, o casamento é fictício, mas a mensagem fica dada. A notícia corre a China, e a fotografia destas mulheres também, e é assim que a mãe de Xin Ying fica a saber que a filha é pansexual. Com o ato, o casal quer demonstrar apoio à proposta que a sociologista Li Yinhe submete à Assembleia Nacional Popular há cerca de dez anos para a legalização do casamento homossexual.

Às vezes as autoridades aparecem, e batem à porta, tun tun tun, e perguntam: quem é o diretor desta instituição? A minha mãe quer que regresse a Wuhan, diz que este é um trabalho muito perigoso, conta Xin Ying.

 

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Ficam duas datas importantes nesta luta: 1997, ano em que a homossexualidade foi descriminalizada na China; e 2001, quando a homossexualidade e a bissexualidade deixaram de ser classificadas como doenças mentais.

O código penal deixou de condenar indivíduos pela orientação sexual, mas perdura até hoje a discriminação, censura no cinema e na imprensa. Existem, segundo especialistas, entre 30 e 40 milhões de homossexuais na China. 80% são casados.

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A internet trouxe mudanças, e aproximou estes dois homens: Shen Qiang, de Guilin, responsável pelo programa de saúde mental do centro LGBT, em Pequim; e Xiao Xin, de Wenzhou, na capital chinesa a estudar Astronomia. O casal conheceu-se no feizan.com, uma rede social para homossexuais que faz a ligação entre pessoas que estão geograficamente próximas. Encontramo-nos no Centro, porque o casal não se quer expor. Xiao Xin ajeita a camisa do namorado. É o mais novo, o mais reservado, e só fala mandarim.

Xiao Xin: – Gostei dele logo que o vi, olhos pequenos, usa óculos, e é um homem maduro.

Shen Qiang: – O Xiao Xin é miúdo, é “cute”, e muito infantil. Mas vem de uma família conservadora.

Xiao Xin: – Sim, o rapaz é o tesouro da família, não esperam que eu seja diferente. Não quero imaginar o que poderia acontecer se descobrissem.

Shen Qiang: – Para mim sempre foi uma coisa muito natural, nunca combati isso e foi algo que entendi quando tinha apenas dez anos, mas nunca tive coragem de contar aos meus pais.

Shen Qiang não se esquece do dia em que descobriu o Centro LGBT: 15 de fevereiro de 2012. Os pais pensam que trabalha noutra organização não governamental.

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De acordo com um estudo realizado pelo Centro LGBT de Pequim, clínicas espalhadas por toda a China ainda continuam a fazer terapias de reorientação sexual através de técnicas como o hipnotismo ou a utilização de químicos ou choques eléctricos.

Shen Qiang conta: o Centro LGBT em Pequim está a fazer um estudo sobre o impacto destas terapias de conversão em conjunto com a Academia de Ciências Sociais da China. A ideia é, em primeiro, perceber qual é o impacto que esta terapia tem nas pessoas e, em segundo, pôr termo a estes tratamentos.

Para já, o centro avança que, entre dez pessoas LGBT, uma já fez o tratamento. A maior parte – 70% – foram obrigados pelos pais.

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Richard Burger publica um excerto de uma história escrita durante a dinastia Tang: “Quando Wu Sansi observou a candura do seu amado, sentiu-se imediatamente estimulado. Nessa noite, Wu chamou-o para que pudessem dormir juntos. Wu brincou nas `traseiras do pátio´ até que os seus desejos estivessem satisfeitos. “

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Amanhã é dia 28 de junho, dia do orgulho gay, dia da consciência homossexual, mais um dia para relembrar, e celebrar.

 

 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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