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José E. Isaac – CUM GRANO SALIS…

A presença de empresas e trabalhadores chineses em África é visível em grande parte do continente. Volumes significativos de investimento fluem em direção a actividades económicas de diversa natureza. A importância da relação económica e, necessariamente, política não pode ser subestimada. Ela é objeto de grande atenção por muitos observadores diplomáticos, económicos e académicos. O público que acompanha os media é regularmente servido com anúncios de projetos que, frequentemente, são de grande dimensão; com referências à presença mais ou menos massiva de trabalhadores chineses neste ou naquele país; com menções à assinatura de contratos de fornecimento de matérias primas; e com dados relativos aos fluxos de investimento, empréstimos ou concessões de ajuda.

O que raramente o leitor se aperceberá é quão difícil é obter ou garantir a fiabilidade dos números apresentados. Diversas razões concorrem para isso. Em primeiro lugar, as fontes de informação têm tempos de produção, por assim dizer, muito diferentes. Em segundo lugar, têm objectivos e funções distintos. A conciliação e comparação dos números que produzem ou publicam nem sempre é fácil.

A fonte de informação mais visível e imediata, os órgãos de informação, vivem no ciclo rápido das notícias. Servem de veículo, sobretudo, à divulgação das manifestações de intenções ou dos acordos assinados. O acompanhamento ou verificação da execução de projectos ou compromissos deles resultantes ocupam um lugar menos relevante na produção das notícias, exceto quando outras razões – por exemplo, acidentes ou conflitos relacionados com eles – lhes tragam de novo uma visibilidade acrescida. Esta não é uma questão exclusiva das relações sino-africanas. É assim um pouco por todo o lado; por maioria de razão se deve esperar que assim seja no caso de temas que não se incluem habitualmente no topo das agendas políticas e mediáticas do mundo.

Ora, entre os compromissos, as promessas, manifestações de intenções e a realidade da sua execução e materialização verificam-se frequentemente – está na natureza das coisas – grandes diferenças. Quem se limite a acompanhar os média tenderá, por consequência a sobrestimar a intensidade das relações económicas bilaterais, dos investimentos e do comércio a elas associados.

A outra fonte de informação principal são os próprios estados.  A informação chega então através dos seus organismos competentes e, em certa medida, das organizações internacionais ativas nos domínios relevantes a que estejam associados. Neste caso, o tempo de produção é claramente diferente. Dados estáveis e fiáveis podem levar meses a obter, por vezes bastante mais. Em muitos casos, diferentes países utilizarão critérios de classificação ou valoração distintos. Os mesmos projetos podem dar origem a fluxos diversos – por exemplo, investimento direto, empréstimos, assistência técnica – cuja contabilização e monitorização podem competir a diversas entidades ou ser registados em distintos processos.

A extensão e rigor da informação recolhida varia assinalavelmente. Por um lado, os Estados podem não possuir sequer os recursos materiais e humanos necessários para produzir dados completos ou fiáveis. Por outro lado, outros fatores externos podem afetar a publicação dos dados: as entidades provedoras da informação podem querer mantê-la em segredo ou, pelo menos, limitar a sua divulgação; ou ainda desejar usar informação seletivamente como forma de atingir outras finalidades.

As organizações internacionais poderão aí ter algum papel de uniformização de critérios de recolha e registo que facilite, ou mesmo permita, a comparação. Mas, não possuem, como regra, mecanismos autónomos de recolha e registo da informação estatística dos vários países. Estão sempre fortemente dependentes da qualidade da informação proporcionada pelos Estados. E, em qualquer caso, esta é uma informação de produção lenta, nem sempre relevante para a decisão corrente dos agentes económicos quando se torna disponível.

Finalmente, temos um conjunto significativo de instituições académicas e centros de investigação – e, ocasionalmente, organizações não-governamentais – em cujo objeto de observação e análise cabem estes temas. Mas há que ter em conta aqui que nem sempre são independentes, nem sempre possuem recursos apropriados, ou a recolha pode visar e estar condicionada por outras finalidades. Em muitos casos não têm mecanismos próprios de verificação e acompanhamento, noutros ocupam-se apenas de um ou outro aspeto particular, de uma ou outra região específica. Mas são frequentemente catalisadoras de reflexão e os instrumentos de alerta precoce para este ou aquele problema.

A relação da China com os países africanos é extensa, intrincada, múltipla. Caraterizar, quantificando e fundamentando com rigor as múltiplas facetas dessa relação nunca poderia ser um exercício fácil. As dificuldades naturais da obtenção de informação estatística fiável e atempada veem-se aqui agravadas pelas condições específicas dos diversos países envolvidos. E os interesses em presença, incluindo os de terceiros, podem ser divergentes ou conflituosos.

Para observadores externos, é um trabalho de detective que vai buscando e acumulando informação e pistas de diversas fontes, no sentido de definir cenários plausíveis à luz dos elementos disponíveis. Cujos números, em particular, devem ser tomados sempre cum grano salis. Em suma, a imagem resultante, necessariamente complexa e em contínua evolução, dificilmente poderá ser resumida na brevidade das declarações políticas, na visibilidade de títulos de jornais ou no acumular de generalizações simplificadoras.

José E. Isaac, Economista e Professor Universitário

 

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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